O Livro dos sonhos
Bom, esse é o prefácio do Livro dos Sonhos, do Neil Gaiman.
Só esse começo dá uma idéia da excelência dessa coletânea de contos que deixam qualquer um abismado de tão reais, sensíveis e fantásticos.
Eu não consigo entender como uma única pessoa (o Sr. Gaiman) consegue reunir escritores tão bons assim. Como é possível juntar simplesmente o melhor dos melhores dos escritos???
Não preciso nem dizer que é leitura obrigatória…
Aliás, ninguém aí leu Coraline??? Ou Anansi Boys??? Tenho muito medo de serem deslizes na carreira do Sr. Gaiman.
Tái o prefácio, por Frank McConnel:
Como os deuses morrem? E quando morrem, o que acontece com eles então?
Você pode também perguntar: como os deuses nascem? Todas as três questões são na verdade a mesma. E todas elas têm uma suposição em comum: a de que é mais difícil a humanidade viver sem deuses do que você se matar prendendo a respiração.
(É claro que você pode ser o tipo de racionalista arrogante que resmunga que o homem moderno finalmente se libertou da antiga servidão à superstição, à fantasia e à veneração. Se for o caso, volte imediatamente ao lugar onde comprou este livro, devolva-o e tente receber seu dinheiro de volta. E, aliás, não se incomode em ler Shakespeare, Homero, Faulkner, ou, no que se refere a isso, Dr. Seuss.)
Nós precisamos de deuses - Tor, Zeus, Krishna, Jesus ou, bem, Deus -nem tanto para adorá-los ou nos sacrificarmos por eles, mas porque eles satisfazem nossa necessidade — diferente daquela de todos os outros animais - de imaginar um significado, um sentido para nossas vidas, para satisfazer nossa ânsia por acreditar que a confusão e o caos da existência cotidiana, afinal, realmente levam a algum lugar. E a origem da religião e também da arte de contar histórias - ou não são elas a mesma coisa? Como disse Voltaire a respeito de Deus: se ele não existisse, seria preciso inventá-lo.
Escutem uma especialista no assunto.
“Há apenas dois mundos - o seu mundo, que é o mundo real, e outros mundos, a fantasia. Mundos como este último são mundos da imaginação humana: a realidade, ou a falta dela, não é importante. O importante é que eles estão lá. Esses mundos proporcionam uma alternativa. Proporcionam uma fuga. Proporcionam uma ameaça. Proporcionam sonhos e força. Proporcionam refúgio e dor. Eles dão significado ao seu mundo. Eles não existem, então são tudo o que importa. Você entende?”
Quern fala é Titânia, a bela e perigosa Rainha elas Fadas, na novela em quadrinhos de Neil Gaiman, Os Livros da Magia, e eu não conheço uma explicação melhor e mais sucinta do que essa — desde Platão, passando por Sir Philip Sidney, até Northrop Frye — para o motivo pelo qual nós não apenas precisamos de histórias, como as lemos e escrevemos. 0 motivo pelo qual nós, como raça humana, inventamos deuses. E dita por uma deusa em uma história.
Os Livros da Magia foi escrito ao mesmo tempo em que Gaiman também criava sua obra-prima - até agora a sua obra-prima, porque Deus ou os deuses sabem o que ele fará a seguir — Sandman. E uma história em quadrinhos que muda a sua opinião a respeito do que são os quadrinhos e do que eles podem fazer. E uma minissérie - como as de Dickens e Thackeray - que, diante de qualquer julgamento honesto, é uma história tão atordoante quanto qualquer ficção de grande destaque (leia-se: academicamente respeitável) produzida na última década. E a verdadeira invenção de uma mitologia autêntica e plenamente convincente para o homem pós-moderno e pós-mitológico: um novo modo de fabricar deuses. E é a inspiração brilhante para as histórias brilhantes deste livro.
Assim como as coisas mais extraordinárias, Sandman tinha começos comuns (lembrem-se de que Shakespeare, até onde podemos afirmar, só planejava administrar um teatro, ganhar algum dinheiro e voltar para sua provinciana cidade natal). Em 1987, Gaiman foi convidado por Karen Berger da DC Comics para ressuscitar um dos personagens da DC da “era dourada” da Segunda Guerra Mundial. Após uma certa disputa, eles se decidiram por Sandman. 0 Sandman original, do final dos anos 30 e 40, era um tipo de Batman suave. O milionário Wesley Dodds, durante a noite, punha uma máscara de gás, chapéu de feltro e uma capa, então caçava marginais e os atingia com sua pistola de gás, deixando-os desacordados até que os policiais os recolhessem na manhã seguinte - o que dificilmente daria uma lenda de vulto.
Então Gaiman descartou praticamente tudo, exceto o título. Sandman - o personagem encantado de histórias infantis que faz dormir, que traz os sonhos, o Senhor dos Sonhos, o Príncipe das Histórias -, inegavelmente uma lenda de vulto.
Entre 1988 e 1996, em setenta e cinco edições mensais, Gaiman tramou um intrincado, divertido e profundo conto sobre contos, uma história sobre o motivo pelo (qual as histórias existem. Sonho — ou Morpheus, ou ainda Lorde Moldador -, esquálido, pálido, trajando preto, é a figura central. Ele não é um deus, é mais velho que todos os deuses, é a origem deles. Ele é a capacidade humana de imaginar significados, de contar histórias: uma projeção antropomórfica de nossa sede por mitologia. E, como tal, ele é maior e menor do que os humanos cujos sonhos ele molda, mas cuja ânsia, afinal, é o que o molda. Como diria Titânia, ele não existe, então ele é tudo o que importa. Dá pra entender?
Grandioso o bastante, você poderia pensar, para conceber uma narrativa cujo personagem principal é a narrativa. Dentre os poucos escritores que ousaram tanto está James Joyce, cujo Finnegans Wake* é essencialmente um imenso sonho que engloba todos os mitos da raça humana (“wake” - “dream”:** pegaram?). E, embora Gaiman provavelmente fosse muito modesto para levantar a comparação, eu estou convencido de que o trabalho de Joyce foi uma influência marcante durante todo o processo de composição. A primeira palavra da edição inicial de Sandman é “Acorde”, a palavra final do último grande ciclo de histórias de Sandman é “Acorde” - o título do último ciclo de histórias é, naturalmente, “O Despertar”. (Todos os títulos das histórias de Gaiman, aliás, são versões de clássicos, de Esquilo a Ibsen, e por aí vai. Britânico, crescido entre os jogos de palavras britânicos, ele não consegue resistir a brincar de esconde-esconde com o leitor — exatamente como Joyce.)
Aquilo era grandioso o bastante. Mas tendo inventado Sonho, a urgência humana de produzir significado personificado, ele criou a família de Sonho, e esta invenção é absolutamente original e, parafraseando o que príncipe Hal diz de Falstaff, inteligente, ela própria, e causa da inteligência de outros homens.
A família chama-se os Perpétuos, e tem sete membros. Por ordem de idade — de “nascimento”, como veremos, não seria um termo apropriado — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (cujo nome costumava ser Deleite). Eles são os Perpétuos porque são estados da própria consciência humana, e não podem deixar de existir até que o próprio pensamento deixe de existir. Eles não “nasceram” porque, como a consciência, nada pode ser imaginado antes deles. O upanixade, a mais antiga e sutil das teologias, tem algo a dizer sobre isso.
Estar totalmente consciente é ter consciência do tempo e da linha do tempo: do destino. Saber isso é saber que o tempo deve ter um fim: imaginar a morte. Confrontados com a certeza da morte, nós sonhamos, imaginamos paraísos onde as coisas não são bem assim: “A morte é a mãe da beleza”, escreveu Wallace Stevens. E todos os sonhos, todos os mitos, todas as estruturas que erguemos entre nós e o caos, simplesmente porque são coisas construídas, devem inevitavelmente ser destruídas. E nos voltamos, desesperados por nossa perda, para a destrutiva mas deliciosa alegria do momento: nós desejamos. Todo desejo é, obviamente, a esperança de obter uma satisfação impossível com a natureza básica das coisas, um deleita ilimitado. Então, desejar vem sempre antes de desesperar, perceber que o desejo de alegria é, afinal, somente o delírio de nossa auto-ilusão mortal de que o mundo é grande o bastante para se acomodar na mente. E voltamos a novas histórias - a sonhos.
Essa é uma versão superesquematizada da linhagem dos Perpétuos, quase uma alegoria medieval. Porque eles são personagens reais: tão reais quanto os humanos com quem estão interagindo constantemente em Sandman. Destino é uma figura encapuzada, monástica, quase desprovida de afeto. Morte — ideia brilhante de Gaiman - é uma jovem mulher inteligente e arrebatadoramente bela. Sonho - é Sonho, sombrio, um tanto pretensioso, um tanto neurótico. Destruição é um gigante ruivo que adora rir e fala como um irlandês. Desejo — outra jogada brilhante — é um ser andrógino, tão sensual e assustador quanto uma fêmea dominadora. Desespero, sua irmã gêmea, é uma velha megera nua, extraordinariamente feia, atarracada e gorda. Delírio, conforme diz o nome, quase nunca é descrita do mesmo modo: tudo que podemos dizer com certeza é que ela é uma jovem de cabelos multicoloridos ou completamente calva, que vesle farrapos e fala somente frases sem lógica, que às vezes atingem a anti-sabedoria surrealista de, digamos, Rimbaud.
Contudo, os Perpétuos são uma alegoria, esplêndida, da natureza da consciência, de estar no mundo. E nunca é demais enfatizar que esses seres, maiores e menores que os deuses, importam apenas em função das pessoas comuns com cujas vidas e paixões eles interagem. A mitologia de Sandman, em outras palavras, apresenta-nos um círculo completo de todas as religiões clássicas. “No princípio, Deus criou o homem?” Muito - e exatamente — pelo contrário.
E Sonho, o Senhor da Tradição de Contar Histórias, está no centro disso tudo.
Nos começamos e terminamos nossa existência com histórias porque somos o animal contador de histórias. Sandman está junto a Finnegans Wake, e tambem a Friedrich Nietzsche, Carl G. Jung e Joseph Campbell, quando insiste que todos os deuses, todos os heróis e mitologias são o teatro de sombras do drama humano. O conceito dos Perpétuos — e particularmente de Sonho - é uma esplêndida “máquina de contar histórias” (uma frase da qual Gaiman gosta muito). Os personagens do irrestrito oceano de mitos e os personagens do chamado mundo “real” - eu e você quando não estamos sonhando — podem se misturar e interagir com esse universo: como eles se misturam e interagem com você e comigo quando estamos sonhando. A crítica literária tem afirmado com frequência que nossa época é empobrecida pela sua incapacidade de acreditar em alguma coisa além das frias equações científicas. (Por isso Destruição, o quarto dos irmãos, deixou os Perpétuos no século XVII - no início da Idade da Razão.) Mas nossos melhores escritores, incluindo Gaiman, sempre acharam meios de reanimar a vitalidade dos mitos, até mesmo com base em sua irrealidade. Credo, quia impossible est, escreveu Tertuliano, no século III, a respeito do mistério cristão: “Eu acredito nisso, porque isso é impossível”. Boa teologia, talvez, excelente teoria ficcional, com certeza.
Agora que Sandman acabou, e seu criador foi adiante, ele continua servindo como uma máquina de contar histórias. A DC Comics e a Conrad Livros, no Brasil, nos proporciona com O Livro dos Sonhos uma série escrita a várias mãos, usando as suposições e os personagens inventados em Sandman. E o volume agora em seu poder, concebido por talentosos escritores de destaque (ou seja, não escritores de histórias em quadrinhos), todos expandindo e elaborando o mito de Sandman, é talvez o primeiro e rico fruto da nova técnica de Gaiman para inventar deuses.
De te fabula, diz o ditado latino: a história, qualquer que seja, é sempre sobre você. Essa é a antiga sabedoria que Sandman transforma em nova: é por isso, finalmente, que nós lemos. E — e eu não conheço maior elogio — outra percepção da sublime visão de Wallace Stevens sobre a ficção em seu grande poema, “Esthétique du Mal”:
E além do que se vê e se ouve e além
do que se sente, quem poderia ter pensado em criar
tantos egos, tantos mundos sensuais,
como se o ar, o ar do meio-dia, fosse preenchido
pelas mudanças metafísicas que ocorrem
simplesmente na vida e onde vivemos.
