Vou ter que responder essas perguntas…
Estou entretido…
Baseado no conceito de antropofagia, será que a religião de certo modo não se enquadra neste conceito?
Voltando aos primórdios da sociedade, de onde surgiram as crenças? Por que foram necessárias teorias como a biogênese e a abiogênese para explicar a origem da vida? Se antes não se existia nada, nenhuma crença, por que as crenças passam a existir? Seriam as crenças uma forma de afirmação de nossos medos e temores? Como se explica a existência de tantas crenças? Por que o antropocentrismo toma o lugar do teocentrismo durante o período das luzes, e por que as pessoas se deixam conduzir pelas idéias de outras pessoas durante este período; elas não possuíam suas crenças? Sua fé?
Será que as crenças de certo modo, não são uma forma de cultura? Pois para cada pessoa chegar a sua crença, esta teve que ser “lapidada”, “adaptada” de acordo com o modo a ser melhor compreendida.
Será que o céu e o inferno existem? Se sim, onde se encontram? O que possuem? E por que existem? Se não, para onde vamos depois da morte? Será que existe uma alma dentro de nós que se for boa irá para o céu e se for má irá para o inferno? Será que essa idéia de céu e inferno não é antropofagia?
Antes de tudo, acho que é necessário expor minha visão à respeito de Antropofagia: Canibalismo é o ato de um ser comer outro da mesma espécie. Antropofagia o ato de qualquer ser comer um humano. Um tubarão, então, se comer um surfista distraído, é um tubarão antropófago, contudo, o Dr. Lecter é um requintado antropófago e portanto, um canibal.
Num sentido figurado, considero antropofagia o ato de o homem consumir o próprio homem no sentido de consumir e extinguir algo que outro produziu.
A queima de livros “hereges” na Santa Inquisição.
O massacre do Carandirú.
Guerras por territórios, mulheres, religiões, petróleo e mais recentemente, por água.
As comunicações de massa induzindo os costumes da audiência e moldando o instinto coletivo para fins de lucro em detrimento à própria essência de preservação da espécie.
Paradoxalmente, antropofagia pode significar reafirmar humanidade.
Os índios de verdade daqui do Brasil -numa época em que havia floresta e isolamento suficientes para serem índios, simplesmente- havia rituais de canibalismo. Os inimigos mais fortes e bravios eram capturados e comidos, para que suas virtudes fossem assimiladas ao guerreiros. E ser comido era um honra, porque só os mais fortes e temíveis eram os que seriam almejados terem suas virtudes “absorvidas”.
Isso aconteceu e acontece em muitas culturas, e fazemos isso todo dia. No caso dos nossos índios, havia um rito concreto de antropofagia, para que acontecesse a antropofagia figurada.
Quando se ama, se consome o outro. “Oh, somos como um só, juntinhos…” Quando há raiva daquele sacana que te passou um cheque sem fundos, se consome aquela pessoa. Então, o ato de “consumir” alguém não é de todo alheio a nós, ditos civilizados: Somos apenas dissimulados e covardes, nada mais, e devoramos o que é bom, e devoramos ainda mais ávidamente o que odiamos.
Houve uma discussão, uma vez, num pré-vestibular (que eu não vou dizer que Universitário da Zona Sul aconteceu pra não fazer propaganda) à respeito de uma fase medieval de transição: Do Teocentrismo para o Antropocentrismo.
Ora, a era em que a Igreja mandava nem era tão terrível e opressora como dizem, mas funcionava muito bem, obrigado. Se fosse tão ruim assim, não duraria tanto tempo nem influenciaria tanto a nós, hoje. Inferno, indulgências, um Papa-deidade supremo, uma nação unificada de feudos corruptos e podres mas que protegiam sua plebe de lobos e bárbaros além de, pagando a alcova, as várias taxas e umas indulgências e se não mantivessem a possibilidade de ascensão de classe, iriam para o céu, até.
Política e religião sempre andaram de mãos dadas. Nosso calendário mudou por isso. O dia do descanso não é mais sábado -é domingo, o sunday- porque um rei Constantino queria unificar cristãos e adoradores do Sol.
Mas enche o saco isso de o Papa poder tudo, e ninguém mais ter acesso a tal Bíblia e de poder transar somente com o conscentimento do Senhor do Feudo (como reza a lenda do FUCK, Fornication Under the Conscent of The King). Reis e intelectuais não gostaram disso, e ficou muito perigoso para a Igreja esses inimigos…
Aí começou a confusão na aula: Um dia todos se voltam para Deus. Noutro, todos se voltam para o homem.
Quadros de homens pelados, musculosos, genitálias à mostra, toda a cultura pagã da Santa Mitologia Grega manifesta. Mulheres voluptosas, belíssimas, suaves: Divas, Ninfas, deusas, Musas.
A perfeição começou a ser buscada nas coisas terrenas?
Houve a paranóia de perfeccionismo, de retratar o corpo de forma perfeita. A música não era mais sacra e entediante, e as festas tinham de tudo.
Ora, o homem passou a olhar para si e esquecer a Deus? Não! Ele encontrou Deus dentro de si, e deslumbrou-se com o que já lhe tinham dito: Feito à imagem e semelhança do Criador, e pleno dos direitos de reinar sobre a criação…
Então a religião não anula o homem, desde que em sua manifestação genuína: O homem, sim, manipula o credo e causa a antropofagia deletéria através de uma religião torpe.
Não bebemos do sangue do Cordeiro, e comemos na ceia a carne do Cristo? Isso é Divino. Não consumimos a carne pela volúpia e pela lascívia, deleitando-se no prazer da carne? Isso é humano.
A religião é a afirmação do homem, e não sua supressão como ser que procura incessantemente religar-se a uma essência superior, insatisfeito com sua atual condição limitada e da esperança de poder ascender, ou melhor: Transcender.
Respondamos:
A crença em algo que permeia tudo e rege a todas as coisas vem de um bom tempo atrás. Provavelmente na tentativa de explicar as coisas que não podiam ser explicadas (porque o homem rotula, classifica e esmiuça achando que pode definir algo) de grandes fenômenos naturais, como o mar bravio, os ventos e tempestades, os vulcões e como há aqui no Brasil, o Tupã, deus-trovão.
Não há explicação científica -a explicação que deve ser feita em laboratório- para a necessidade de devoção à algo, mas é científico -aceita por ter sido feita em laboratório- que o ser humano tem uma necessidade nata de ser devoto de algo. Devoto da Coca-Cola, devoto do Exu, devoto do Manon, devoto da Gisele Bunchen, evoto da não-devoção ou de Deus…
Há um impulso inato para isso, nada mais natural que, o homem quando agia de forma mais livre e natural, passasse a naturalmente suprir suas necessidades naturais. Eu enfatizo o “da natureza” porque o instinto nunca morreu, e o fato de vestir um terno ou uma saia social não irá abster o indivíduo da tensão, e do alívio dela, o prazer.
O instinto jamais irá se ausentar de nós, a não ser por ser manifesto em outra forma de existência.
Prazer e religião são necessidades naturais, e a fertilidade é algo divino e misterioso: Caminhamos naturalmente para o sexo como culto, e a veneração do princípio fértil da natureza e da mulher.
Bom, Isso é assunto para outros posts interessantíssimos, não podemos nos dispersar.
E as muitas facetas das crenças nos levam a um lugar-comum: Deus e a alma como algo imortal, ou parte de algo imortal.
Da teoria da abiogênese, é confuso discorrer devido ao fato de ter sido forjada por uma proto-ciência péssima, e de uma fase muito escura e católica, por assim dizer… Veja a receita para fazer ratos: Se eu juntar um punhado de aveia e outro de linhaça com uma roupa de dormir usada de uma dama e colocar dentro de um odre de barro para colocar num lugar escuro, certamente nascerão ratos lá. E moscas nascem da lama apodrecida, e lagartos brotam de pedras, e uma lista de coisas que nós agora sabemos inverossímeis.
Mas na época havia sexo, e sabiam que, o esperma do homem somado ao óvulo da mulher resultava em uma gestação! Foi, acho eu, um descuido observacional da época. Logo fora desmentida com experimentos simples.
A biogênese, óbvia e clara, apresenta um probleminha: Um ser vivo origina o outro, então de onde veio o primeiro, se não houve primeiro? Vem a pergunta: Houve primeiro?
As religiões geralmente respondem que Deus existe desde sempre, que não teve um começo: Ele é.
O que o Big Bang nos diz é que a abiogênese é possível, e volta a acreditar, por assim dizer, na “receita de fazer ratos” descrita acima. Uma explosão que causou uma sucessão de probabilidades que, de uma sucessão de acertos críticos e fundamentais, a vida surgiu.
Pensando que, numa linha ilimitada de tempo, podem ocorrer ilimitadas situações que favoreçam o começo da vida, que seria somente outra das muitas formas de manutenção da energia que há no universo, sabe, aquela história que na natureza nada se cria, tudo se transforma e tal… Mas não houve uma linha infinita de tempo desde o suposto Big Bang, e pelo que se vê, foi cronologicamente para o universo muito “recente” a tal explosão para que as coincidências fossem tão fortuitas… Assim como há uns fanáticos que lêem a Bíblia ao pé da letra e acham que Deus fez tudo em uma semana, há os que acham que o Big Bang originou a vida em apenas 13,7 bilhões de anos de coincidências fortuitas…
Somos, por assim dizer, energia… Antes de Big Bang ou Deus, primos da fusão de hidrogênio do Sol, da radiação de Chernobyl e da radiação emitida pelo tubo de raios catódicos do nosso já pré-histórico monitor CRT que tu podes estar olhando agora.
Não, eu não tenho LCD, e isso vai soar ridículo em pouco tempo.
Mas, então, permanece a incógnita: Onde começou a droga da energia? Esta pergunta, creio eu, está acima de ratos de camisolas de damas e de quantos dias Deus fez tudo.
Ora, a sopa de aminoácidos fora feita em laboratório, e uns coacervados simples. Simularam uma atmosfera rica em água, metano, hidrogênio, amônia e descargas elétricas e alguma provável proteína muito suspeita e formou-se cadeias de aminoácidos que numa possibilidade de 48 zeros de extensão (cinqüenta aminoácidos, de vinte variedades) um dia combinou-se de tal forma que compôs o DNA, e essas proteínas passaram a se replicar, não se sabe porque mas, se replicaram.
Tá, mas daonde retiravam matéria para isso? Fácil: Destruíam as proteínas não vivas à volta, até que um dia surgiu uma que aproveitava a luz do Sol…
Até hoje não li nada convincente à respeito de autótrofos. Falam de um DNA ambulante que é heterótrofo e surge do nada, mas de clorofila, nada.
Bom, mas depois disso um tempo se passou e tudo era como a gente conhece por aqui.
Para mim, isso soa tão absurdo quanto dizer que um Ser Onisciente e Totipotente um dia resolveu criar a vida. É necessário um pouco de fé pra engulir essas…
Que pode ter criado a vida de muitas formas além da interpretação literal de moldar pessoas do barro…
A necessidade de saber como tudo começou é óbvia: Tudo acaba por aqui, portanto, deve haver um começo. As coisas que nunca terminam, como o espaço e o tempo, não nos preocupam tanto quanto o que acontece quando se morre ou como a vida surgiu.
A pergunta é: A partir de quando duas células célula haplóides formam uma vida? Um ser que se replica com clones não gera variabilidade genética para as “mutações felizes” acontecerem… E vem uma coisa à tona.
O zigoto já é um ser vivo? Mórula? Blástula? Coacervados?
Penso logo existo: Será que é vida somente quando o ser percebe que é? O vírus…
Próxima pergunta…
Bom, nós temos temores. O peso do pecado a nos ameaçar, o temor pelo desconhecido, o desejo incontrolável de conhecer.
A religião é o mero reflexo da concepção de Deus pelos homens, e é evidente que este irá impingir às religiões seus traumas, frustrações, temores. E é uma fuga disso também, uma esperança de conforto, de comodidade frente ao incômodo.
É mais fácil dizer “foi a vontade de Deus” que de encarar o fato de existir o livre arbítrio. E existem muitas formas de culpar outra coisa que não a nós mesmos, dependendo da criatividade e das experiências de cada um.
Isso também justifica a multiplicidade de religiões, o fato de cada um ter uma concepção única de adoração. Mas, então, cada um deveria fundar a sua própria Igreja? Certamente. O habitáculo do Senhor é o nosso corpo, como cita a Bíblia, mas as pessoas tem até certo ponto uma mutualidade de crença, o que faz as religiões terem muitos adeptos.
Basta escolher algo próximo da sua opinião, e juntar-se e afirmar-se no coletivo.
Isso, até certo ponto, não anula a fé, e não dilui a crença individual: Ela é afirmada coletivamente, e a fé, partilhada, se reforça.
Novamente, digo que o Teocentrismo não fora tomado pelo Antropocentrismo, fora interiorizado. Esse divisor é simbólico e se adequa somente no sentido didático para elucidar pessoas menos esclarecidas.
A Igreja sim, manipulou e canibalizou seus fiéis, mas a religião uniu muitas pessoas com Deus: aqui é imperioso distinguir igreja de religião.
Também há a cultura, que junto da política andam juntas com a religião. Nosso presidente da nação do dólar não é um cristão patológico? Não coíbe pesquisas com células-tronco? As lideranças não ficam perturbadas quando vêem a taxa de natalidade e de pobreza e de óbitos infantis enquanto o Papa é refratário ao planejamento familiar?
Não temos no Brasil um caso de uma criança anoencéfala ter sobrevivido e ter na presente data cinco meses de “vida”, e sua mãe diz “que Deus leva ela quando Ele quiser”? Esta criança está condenada, e sua mãe é doente por permitir que ela viva.
Ela soube, ainda na gestação, que sua filha não teria cérebro, e mesmo assim prosseguiu a gestação.
Esta criança não pensa, e somente seus reflexos incondicionados e viscerais são manifestos. Uma atrocidade, no mínimo, apoiada pela lei vigente, e pela Igreja Católica que predomina no Ocidente.
Nossa cultura é permeada de religião, e continuará assim. Nomes, expressões, feriados, calendários, credos e a nossa mídia amada propagando o que for para agradar, tudo sob o velo da religião da maioria.
Do Inferno e do Céu, e da alma, e espírito, esses já eram questionados antes de qualquer indício cristão, mas não é post para agora… Esses assuntos merecem dedicação especial.
Eu preciso agradecer a Fer que mandou as perguntas, e pela lucidez dela quebrando o estereótipo de guria novinha retardada.
Tomara que tenha algo que esclareça aí encima, Fer, e podem mandar perguntas à vontade, sobre qualquer coisa.
Se eu não souber, sei quem sabe.