Sunday, March 22, 2009
Bases Indispensáveis - No Aikido e na Vida
Kamae (guarda, atenção constante)
Kiryoku (força vital)
Sheishin Jotai (estado mental)
Metsuke (olhar, físico e mental)
Ma Ai (espaço-tempo)
Arukikata (marcha)
Tai Sabaki (deslocamento-posição, esquiva, voltar o corpo)
Kokyu (respiração profunda)
Kokyu Ryoku (coordenação da força física e o rítmo respiratório)
Sokudo (velocidade)
Ko Ryoku (eficácia)
Reigisaho (etiqueta)
Nichijo No Taido (atitude na vida cotidiana)
Kokoro no Mochi Kata (lidar com emoções - coração)
Irimi (entrar o corpo no corpo do adversário, invadir o espaço)
Tenkan (pivotar, mudar de direção)
Atemi (dominar a vontade do outro, provocar dor, perturbar a concentração, parar a intenção da ação)
Ura (representa a entrada por trás, o verso, o aspecto escondido das coisas)
Omote (a entrada, superfície, frente, exterior, aspecto óbvio das coisas)
Fudoshi (imobilidade no movimento)
Friday, March 13, 2009
Unborn
Mais um capítulo. O segundo do primeiro livro, pra ser mais preciso. O outro lá era um dos últimos do segundo livro.
Uma criança prematura, malformada, jaz numa bacia de bronze batido, submersa numa placenta, endométrio e carnes estranhas e escuras, tamanha a violência da contração.
Uma criada, testemunha anônima e silenciosa do horror ocorrido naquela construção fria fora a encarregada de desfazer-se do pequenino corpo. Tarefa fácil, pois era pouca carne e assemelhava-se a miúdos e restos de um faisão abatido para assar. Ninguém iria notar, o fosso de lixo do Centro era sempre regado de sangue e vísceras dos porcos, faisões e eventualmente, abortos e assassinatos.
Aproximou-se da lápide onde a mãe cruel morreu, e viu o corpo em cima do futuro túmulo de alguém famoso. Sua vestimenta parda tingida de sangue diluído em líquido tornava-se rubro e abundante no ventre. Pernas abertas, as pernas pendendo para baixo e ainda com o cordão ligado ao feto. O homem, o executor, jogou uma faca de lâmina curva no chão. Um homem alto, muito magro, vestindo uma túnica que nada revela de suas feições.
Ele estava longe, enxugando as mãos ensangüentadas com um chumaço de papiro batido para ser macio. Ele parecia estar incomodado com a presença da jovem contratada para limpar o local sem contar nada aos outros, mas não dava importância para a horrenda cena que provocara. Fizera o aborto em silêncio total, numa habilidade que poucos curandeiros ou alquimistas possuíam. Ainda de costas, falou pela primeira vez e saiu:
- Corte o cordão depois. Limpe tudo antes que seque. Ali está as ferramentas para limpar e o álcali. Pagarei o restante logo.
A garota olhou o corpo da mulher e ficou tomada de pânico ao pensar ter que livrar-se do corpo pessoalmente.
-Mas amo, e o corpo da vossa ama? Disse, com a voz trêmula vacilante.
O homem alto parou e voltou-se a ela:
-Eu mesmo a removerei. Não se preocupe, ela morrerá logo. E saiu.
Morrerá logo? Pensou a jovem. Ela está viva ainda? Respirou fundo, reuniu forças e foi pegar a vassoura e os panos.
Havia, perto da saída dois baldes e três cântaros de água, duas vassouras grandes e um frasco de vidro em forma de gota com mais ou menos um ômer de um líquido viscoso amarelo, e algo que parecia serragem flutuando logo acima. O frasco era caro, pelo tamanho e a transparência de cristal, e tinha uma rolha de vidro.
Uma rolha de vidro, como seu avô dissera, significa que delimita um conteúdo corrosivo, pois uma rolha normal se desfaria tão logo o vapor da substância atingisse a madeira. Seu avô trabalhara na obtenção de itens para os alquimistas e boticários do Faraó. Ele era muito esperto.
Mas ela também ouvira na feira, na banca ao lado onde estava pechinchando retalhos para fazer seu vestido um boticário disse que os ácidos corroem quase tudo, e ácidos específicos corroem mais os metais ou mais as pedras, e talvez até o vidro, mas os líquidos alcalinos são opostos aos ácidos, por isso a pele fica com aparência melhor se lavado com a baba da Babosa ao invés do Vinagre, que apesar de ser efetivo contra piolhos é ácido por excelência e etc.
O Boticário da feira tinha uma grande clientela.
- O homem dissera “álcali”. Mas a rolha era de vidro. Bom, pensa ela, vou tomar cuidado para não tocar nisso e diluir bastante, ou o balde irá sumir antes de eu mergulhar a vassoura. A primeira lição: O álcali era tão alcalino que, tamanha sua concentração passara a ser tão corrosivo quanto ácido.
Porque os opostos sob certo aspecto às vezes assemelham quando se distanciam extremamente.
Ergueu o pote com certa dificuldade, e tirou a rolha. Um cheiro de amônia invadiu-lhe as narinas e fez seus olhos lacrimejarem tão abundantemente a ponto de não enxergar temporariamente. De olhos fechados mesmo, emborcou o pote um pouco e deixou cair um pouco da substância fétida na água. Pôs o frasco no chão, num baque fraco que ecoou em toda a câmara e tampou-o rapidamente.
-Que cheiro terrível! Parece as fumigações de Amom! E estava certa.
A garota enxugou as lágrimas, pegou o balde pela alça com as duas mãos e penosamente arrastou o balde para o centro da câmara, porque era muito nova e fraca. Por um momento tinha esquecido que havia ali uma mulher morta, um feto abortado e muito sangue para ser limpo.
A câmara, dedicada a um serviçal de destaque do Faraó, que será assassinado assim que o Representante falecer - para servir-lo no além - é um lugar ainda inacabado, possui formato quadrado, com vinte varas de altura e largura. Há algumas pinturas nas paredes, e, até onde a débil luz que vem de uma fenda para a saída, mostram uma carruagem buscando o Faraó para o Mundo dos Mortos. Anúbis, ainda em contorno, é a maior figura.
Bem ao centro, o túmulo vazio serviu de mesa para o aborto. Com uma vara e meia de altura e três varas de comprimento e uma vara de largura, a formosa mulher, jovem, alta e com cabelos estranhamente claros jazia com os membros frios para baixo, o rosto suave, sensivelmente contraído pela dor e manchado de sangue das mãos, que por sua vez, seguraram-se firmemente nas beiras do tampo do túmulo enquanto a contração não vinha.
Durante sua intensa agonia, escondeu o rosto com as mãos, daí as marcas de sangue na face, e entre lágrimas de arrependimento, expirou.
Ninguém sabe, a não ser ela enquanto vivia os últimos momentos, que desejara ardentemente ao Deus estranho dos Hebreus que seu filho vivesse, e vingasse esse sortilégio que é a vida.
O sangue vertia vagarosamente no túmulo, e a bacia onde o feto jaz recebe, conduzido pelo cordão vital, mais e mais sangue e líquido amniótico. Um fenômeno sobremaneira macabro, ver as gotas surgirem da vulva, uma após a outra em procissão, morosamente escorrendo, penosamente devagar até ganhar o ventre do feto, e suas carnes que antes nutriam e protegiam o agrediram e asfixiaram.
E a garota viu isso, e teve medo. Ainda está viva, lembrou-se. Será que seu coração ainda bombeia, sua alma ainda raciocina, porque é no coração onde mora a ciência do homem, segundo o credo Egípcio antigo.
Novamente as lágrimas vieram, mas não foi devido a amônia. Comovera-se e lamentava a morte daquela mulher tão bela e tão diferente, e pôs-se aos prantos, abraçando os joelhos sentada ao lado do balde, ao lembrar que um futuro homem estava na bacia de cobre batido.
No deserto, a dádiva do Nilo atraiu muitas pessoas, e formaram uma nação forte e próspera. Mas, não se sabe como, talvez pelos camelos dos Tuaregs e dos mercantes os piolhos tomaram conta das moradas, dos colchões e do gado: invadiram os palácios límpidos e os casebres dos escravos e todos tiveram que raspar todos os pêlos. Pêlos pubianos, os cabelos da cabeça, das pernas… alguns até da sobrancelha se livravam, temendo a sarna ou um piolho ousado. A garota que vai ter que limpar tudo ali não tem um fio de cabelo, e sabe que até a sacerdotisa usa peruca.
Por isso ela observou detidamente os longos cabelos claros daquela mulher. Brancos, sem um só piolho. Tocou na sua cabeça e acariciou-a. Apesar do sangue coagulado e de suas melenas estarem desgrenhadas, não perderam sua beleza única e última, sua maciez gélida e contagiante. Aquilo era uma lembrança que aquela menina não esqueceu, e esteve fascinada ali por um longo tempo.
O cheiro da amônia na água e o odor enjoativo e revoltante de hemoglobina oxidada do sangue vieram ao seu nariz de repente. Mais tarde esse fedor ocre de ferro enferrujado salvaria a vida de alguém.
-Oh, preciso limpar logo isso, disse, como se acordasse dum transe. Foi até a vassoura, mergulhou-a na água esbranquiçada, e pôs-se a limpar.
Enquanto tirava as crostas de sangue do chão e das laterais do túmulo, tinha os olhos fixos na mulher. Ela era magra, e muito formosa, o contrário da maioria escrava que é esquálida e doentia. Seu pescoço fino e delicado não tinha adorno, ela tinha o seio belo, cheio de colostro para o filho morto; as ilhargas dilatadas pela gravidez e o esforço mostravam sinais de um dia terem sidos esguios e harmônicos. Suas coxas longas e fortes, e seus braços de tônus revelam ela não ser um membro da realeza, por trabalhar manualmente, mas também não é do povo.
-Ela não usa ouro, nem brincos, nem colares… Que estranho. Até os mais paupérrimos usam adornos, pelo menos no nariz… ou um colar… brinco…
E passado algum tempo, depois de muito vai-e-vem com baldes de água rubra jogados para fora e o esfregar ecoante com a vassoura e os panos encharcados e mal cheiro do curioso porém efetivo detergente… então chegara a hora de livrar-se do feto e seus despojos.
O local estava já relativamente limpo, exceto onde a mulher estava, não ousara tocar nela, mas precisava romper o cordão vital para levar o feto para o lixo.
Pegou a faca do chão. Uma lâmina muito bonita, curva, polidíssima, com uns dois palmos das pequeninas mãos encardidas da jovenzinha. Pôs em punho e apertou-a forte, para cortar num golpe só, com nojo de tocar naquela coisa nojenta.
Dirigiu-se à bacia. Ajoelhou-se frente a ela e trancou a respiração. Contraiu os lábios e ergueu a faca, segurou na ponta dos dedos o cordão e fez a lâmina descer como se o cordão ao se romper a fizesse acordar de um pesadelo febril.
E rompeu-se. E do cordão saiu muito sangue porque a mulher estava viva.
-Mas que nojo! Não acredito que irei tocar nisso! E tocou. Tentou duas vezes dar um nó no cordão, mas era demasiado viscoso e jorrava. Suas mãos trêmulas conseguiram somente quando ela pegou uma boa porção e torceu.
-Quanto sangue essa mulher tem! Um cântaro? Reclamava num humor macabro, novamente pegando os panos, o balde, a vassoura e a amônia.
Um ser humano sadio tem de cinco a seis litros de sangue, e um humano sadio sobrevive a muitas adversidades se tiver bom ânimo.
Depois de limpo, ponderou ser sua culpa não ter antecipado isso. Ponderou que, se aquela mulher, mais morta que viva, morresse, seria por inadimplência dela. E cogitou salvá-la. Não sabia como, mas ao imaginar o pesar durante a sua vida de ter na lembrança a morte de alguém por pura omissão seria angústia demais.
-Deveria estar brincando com minhas amigas. Olha o que eu estou fazendo aqui! Maluca, sonsa! Repreendia-se.
E pegou a bacia com os restos. Cobriu com um pano, evitando fitar diretamente o conteúdo, e foi para fora.
Lá, fora da pirâmide, Rá brilhava como só ele pode, e a ofuscou. Mas ela gostava disso, e saíra da fenda como se saísse do fundo negro de um mar caudaloso e frio para respirar a plenos pulmões o ar da superfície. Suspirou fundo e sorriu. Viu uns trabalhadores no lado norte da construção e o palácio tremulando ao longe. O vilarejo era um pouco longe dali, e era para lá que ela vai.
As correias da sandália rangem a cada passo, e a areia gruda nas suas canelas, por causa da água da limpeza, e a bacia estava morna, não sabia se era por causa do Sol ou por causa do útero donde saíra.
Teve enjôo. Seu estômago dava voltas, e sua vista fervilhava contas coloridas. Não tinha almoçado, e nem iria, e a câmara tinha um ar frio que ela não estava acostumada. Ao sair deparou-se com um vento quente, e esse choque térmico a fez muito mal.
Mas prosseguiu. Faltava pouco para tudo acabar. A areia fina e fofa dificultava muito o passo, e às vezes derramava um pouco de placenta e água com sangue da bacia, para seu enjôo piorar cada vez mais.
Chegou ao vilarejo. A fossa do lixo à sua frente. Pensou jogar bacia e pano e tudo, para livrar-se duma vez por todas dessa funesta tarefa, mas deteve-se, pois seria atitude suspeita. Espreitou à volta: ninguém. Deveria ser hora do almoço. Levantou o pano vagarosamente e, sem perceber, fitou diretamente o rosto da criança, envolta num pequeno sargaço de carnes e líquidos. Lá estava, a fita-la fixamente nos olhos.
Congelou. Via a criança, diminuta, numa expressão tão macabra, desesperada, imóvel, reluzindo na pele delgada o Sol implacável e, num momento parecia estar viva. Com a mão trêmula, tocou na sua pequena testa.
Aí a criança tossiu. Tossiu pelo nariz um líquido amarelo-gema, depois água e pôs a sacudir os membros e ensaiou o primeiro choro.
A garotinha, que tinha experimentado horrores mais que suficientes por uma vida inteira numa manhã não resistiu aquilo e soltou a bacia, que era grande e pesada, tomada de uma fraqueza que tomou o corpo inteiro. A bacia tiniu na beirada do fosso, e a única coisa que conseguiu segurar foi o feto enrolado no pano.
Um trabalhador sonolento, descansando do almoço recostado num muro ouve um metálico tinir no fundo do fosso, e vê de longe uma menininha que, apesar do bronzeado típico, estava tão pálida quanto um defunto e tremia vertiginosamente, abraçada num pano enrolado donde pendia uma corda.
Voltou a dormir.
A garota em choque estava com os olhos tão esbugalhados que não conseguia piscar, caminhava em direção a torrente d’água do Sul e lá lavou a criança, sem importar-se se viam ou não. Miraculosamente não havia viva alma para interferir.
Deixou o pano cair e pôs a criança na torrente fria de água. A criança teve um tremelique e não parou mais, porém não chorava. Ia-se água abaixo o sangue e viscosidades e um lanugo que cobria a criança.
Pegou o pano no chão com a criança no colo e notou que seu vestido estava empapado de sangue.
E deu um nó no umbigo da criança.
- Meu senhor, precisam contar-lhe uma notícia ruim.
Um homem alto, muito magro, agora com a típica vestimenta do Sacerdócio Egípcio interrompe a escrita de algo em um papiro batido. Está sentado numa escrivaninha, no Recôndito do Grande Acervo do Faraó.
- Por favor, peça para entrarem.
- E-eu preciso adverti-lo que tu serás tentado a matá-los.
- Então mande-os entrar logo.
O Grande Acervo do Faraó seria mais tarde chamado de Biblioteca. Muitos exemplares irão para a futura Biblioteca de Alexandria. É um local com muitos quadrados semelhantes a criptas nas paredes onde se colocam rolos de pergaminhos, páginas de papiros, os biblós e os codex. Os papiros estavam em alta na época. Nobres e religiosos podem ter acesso, ainda que restrito, à leitura e podem colaborar com exemplares. Os escribas do Faraó apreciam e então assimilam ou rejeitam o conteúdo.
O orgulho dos bibliotecários era a vastidão de assuntos e da organização extrema. Nunca demoraram mais de um minuto para indicar a localização de um assunto. Seu Index, baseado num ábaco era o mais rápido da atualidade.
Porém, o silêncio era imperioso. Um servo já foi punido com escorpiões após espirrar e fazer um escriba borrar um pergaminho inteiro.
Entraram duas figuras do Exército Imperial. Magros, porém musculosos e bronzeados, com mais de dois metros de altura cada. Vestiam uma saia de tiras de couro e sandálias, que protege pouco da lâmina das espadas, mas não impede a notável agilidade em batalha desses guerreiros. Um deles deu um passo à frente. Limpou a garganta e cerrou os punhos.
-Meu senhor, venerável Escaravelho, não localizamos o corpo a ser removido, meu senhor.
Houve um longo silêncio. O homem que ordenara a remoção do corpo da mulher, ainda sentado e olhando, perdido, o pergaminho em suas mãos, parecendo estar sereno e impassível:
-Como estava o local?
-Perfeitamente limpo, exceto no túmulo. Havia sangue novo sobre o tampo, meu senhor.
-Verificaram os arredores?
-Estamos a dois dias vasculhando toda a cidade sem descanso. Cada quadrante foi minuciosamente verificado. Não há indícios de qualquer rastro. Um feito notável, meu senhor.
-Realmente notável. Uma artista. Fizeram bem em notificar a situação. Excelente.
-Venerável Escaravelho, deseja que nos dirijamos imediatamente ao pátio da execução?
O fantasma, como é chamado um soldado das operações delicadas, engoliu saliva com dificuldade. O outro somente aguardava ir à execução.
O Sacerdote levantou-se com alteza e majestade. Era realmente um homem alto. Seu rosto, magro possuía arcos zigomáticos protuberantes e olhos fundos que transmitiam uma calma inquietante. Apontou para os dois e disse:
- De forma alguma! Tu e tu sois meus melhores Fantasmas. Treinei-os com o melhor da Arte Egípcia, porque os executaria, servos excelentes?
-Falhamos grandemente, meu senhor. Somente nosso pó aspergido no Nilo pagaria o perdão.
-Não aconteceu falha. Ela fugiu. Ela é ladra astuta e pago até agora alto preço por envolver-me com ela. Tu e tu não falharam, de forma alguma. Faz parte dos meus desígnios tal.
O Sacerdote apoiou-se na escrivaninha com as mãos e olhou para uma janela com a expressão triste, e disse algo para si mesmo em voz alta.
-Infelizmente uma pequena morte já aconteceu em virtude de sua belicosidade. Ela voltará, e é certo que cairei.
O soldado que estava quieto dá um passo à frente e arregala os olhos, como se quisesse evitar que aquilo fosse dito. O outro exclama:
-Meu senhor, devotamos nossas vidas em defesa do Faraó e a ti, ó Sacerdote, pelo poder de Rá que impediremos que tal aconteça a ti!
-E eu vou me preparar para quando isso vier a cair sobre o Egito. Será assim.
Ele enrolou o pergaminho lentamente e tampou o frasco de tinta. Um escriba veio imediatamente recolher o material da escrivaninha.
-Agora quero que rasteiem a garota que designei limpar o local. Verifiquem seu comportamento. E notifiquem.
-Já foi feito, meu senhor. E ela está com a criança.
A face inexpressiva do Sacerdote assumiu traços de raiva e medo, como uma criatura selvagem acuada. Sua mão esquerda apoiou-se levemente na escrivaninha esculpida em arenito de sílica maciço. Um estalo seco pode ser ouvido e uma rachadura percorreu toda a extensão dela.
Os Fantasmas se retiram, temendo serem tocados com a raiva do que sustenta o Sol no firmamento.
No poderoso reino que goza das dádivas que o Nilo oferece, é lei o trabalhador ser pago, pois o trabalhador vale o que recebe, e punições severas são aplicadas aos que não recompensam devidamente seu serviçal. Faz-se o moribundo jurar que “jamais fez o trabalhador trabalhar mais que seu pago”, porque a punição se estende para além dessa vida.
Contudo, uma vez ao ano acontece a corvéia, um dia de trabalho sem remuneração para a honra do deus-faraó.
Nesse ano, não houve corvéia. O sacerdote de Tebas diz que o Reino do Nilo está mais que bem farto, e o Faraó está mais poderoso que nunca. Esse favor será pedido mais tarde, porque o povo fora exemplarmente devoto. Um evento inédito, e estranho.
O crescente fértil já estava para a sega, e aquela menina estava ocupada demais com a criança. Como explicaria para sua família? Naquele dia e no próximo não trabalharia, e ganhara dinheiro suficiente para ficar em casa por um tempo, mas planejava economizar. Queria aprender a escrever, em segredo. Porém, como dizer que arranjou dinheiro de limpar uma cena de crime, de um sacerdote! E que a criança é fruto de um aborto mal-sucedido?
De alguma forma, mãe caíra enferma com a mesma tosse persistente que a criança tinha, e ela ficava em casa, zelosa a cuidar dos dois. Mas amamentar a criança com leite de cabras não é o suficiente, ela precisa do leite humano. Então a brava menina decidiu chamar um médico.
Todos os povos civilizados da antiguidade sabiam que os egípcios são os melhores médicos, tendo destaque em cirurgias oculares e na ampla farmacologia. Aquela menina foi logo perguntar ao melhor médico de seu feudo (que era muito grande) e ele concordou em visitar a sua mãe e a criança. Enquanto acertavam o pagamento e a confecção de remédios expectorantes e revitalizadores, ocorreu a menina indagar a respeito de algum substituto do leite materno. O médico mencionou que algumas mulheres que possuem filhos dão de amamentar, apesar de cobrarem caro, e as que Rá não sorriu, as que por alguma razão perdem a criança e ficam com os seios doloridos de tanto leite.
A menina e o médico entraram em casa. Ela o acompanha até o quarto e sua mãe, tossindo uma tosse fina, comprida, levanta-se da cama, com dificuldade, e o cumprimenta.
-Por favor, deite-se. Vou examiná-la. Ela deita na cama. Ele, coloca a mão sobre punho direito dela e escuta a pulsação, atentamente. Compara com a sua, para ver se ela está com alguma enfermidade da alma. Coloca o ouvido no peito dela e pede para respirar fundo. Mais tosses. Um som distante, cavernoso, de ar saindo com secreções. Ele pede para a mulher respirar em seu rosto.
A menina, olhando tudo na beira da porta achou isso bem estranho, mas sabia que a anamnese é assim mesmo.
Sua mãe sentou-se na cama, e respirou bem próxima do rosto dele. Ele tinha traços finos, nariz alongado e um rosto simétrico como um diamante clássico. Era alto, mesmo para um egípcio, e estava sério.
-Respire fundo e exale. Ela fez, e não conseguiu conter a tosse.
-Tudo bem, respire de novo. Dessa vez ela conseguiu, com a garganta ardida e o pulmão chiando, respirou três vezes.
-Mau. Mau, mau, mau- disse, com um ar severo. –Tu andas querendo perder teu filho?
A menina descruza os braços e não entende nada. Sua mãe arregalou os olhos fez uma cara de surpresa que, se não fosse as circunstâncias, acharia muito engraçado.
-Mas, que… Perder? Não! E antes que ela dissesse algo, o médico interrompeu:
-Eu conheço outras ervas e compostos abortivos e confesso que tu usaste algo muito forte. Eu conheço esse hálito, e faz três dias que tu a tomas, dois dias que tu tosses e um dia que puseste a maceração na vagina.
-E-eu, sim. O fiz. Sim. E mais tosses e vergonha. O médico satisfeito, se levanta, pega sua mochila e começa a abri-la.
-Bem fazes em regular o número de familiares aqui, mas tu nem estás grávida. Não te preocupa, teus sonhos foram mal interpretados. Toma esse xarope, e toma muita água e leite que teu corpo se livra da toxina. Agora saiba que esses abortivos são de morte, e afetam a todos na casa. A criança deve ter absorvido uma fração do veneno.
Um som de tosse, baixo, vem do aposento próximo.
-Traz a criança, menina esperta. O médico entrega o xarope a mulher, e senta na cama, bem na ponta.
A menina, relutante em mostrar a criança ao médico, vai ao quarto e a traz. Ela sabe que os médicos praticamente são videntes, e sabem das coisas que nem nós mesmos sabemos do nosso corpo.
Ele pode descobrir algo ruim a respeito da criança e condenar a todos na casa.
Num salto o médico recebe a criança:
-Mas que criança bonita! Vamos ver o que há.
Ela estava enrolada em um lençol de linho, estava limpa e com o umbigo ainda cicatrizando. Era grande, de cabelos pretos e olhos tão negros quanto um corvo e tinham um brilho frio, como de lâmina.
-Sem dúvida esta criança passou por maus bocados. Ela está cansada, deve ter tossido muito. E está inchada. Alguém andou a medicando?
-Não! Disse filha e mãe, em uníssono, após serem fulminadas pelo olhar inquisidor do médico.
-Hum, apesar de estar grande, ela me parece um pouco prematura e com olhos fundos. Quem amamenta?
-E-era justamente disso que estava a comentar contigo, devoto de Imhotep.
-Pois então, sei do quê precisa essa criança. Poucos dias atrás curei uma mulher muito bela que havia perdido sua criança. Ela fora envenenada severamente, mas pode ser que o veneno já tenha ido embora de seu leite, e possa amamentar tua criança.
Depois de se olhar a criança um bom tempo, a devolve e olha para a mulher, perplexa com o que o médico acabara de dizer:
-Vamos ao pagamento?
Sunday, March 8, 2009
Nine filme short movie
Uns 10 minutinhos do que está por vir do filme 9. Visto antes no cyberpunkreview.
Só não explicaram nos comments do vid o áudio sobreposto de sexo explícito no começo… O.O
Tuesday, March 3, 2009
Neuromancer
Houveram rumores de que iria pro cinema em 2009.
Telona??? Só em 2011, diz o imdb.
-sigh-
Até lá assistiremos a pré-estréia no Sprawl mesmo.


