Fui ver o Búfalo da Noite.
Tava no curso, de repente decidi ver o que tava em cartaz.
Fui.
Bom, pra quem gosta de filmes com finais surpreendentes, efeitos especiais de videogame, explosões, adrenalina e o escambau Holliwodiano, esquece.
O esquema desse filme é mostrar o limite da dependência de uma pessoa pela outra. E uma vingança muito, muito sutil, como deve ser.
Tá, teve quem reclamasse de cenas de sexo demais, de nudez explícita, de diálogos minimalistas (isso é mesmo), mas o filme é para mostrar um triângulo amoroso implícito -quase um quadrilátero e por um triz não foi outros polígonos- onde havia uma grande necessidade de dependência entre cada um, cada um pelo seu motivo, e seu ódio por ter de ser assim.

Sexo em sí era desculpa furada para ficar junto, a nudez para ter contato, tanto que há cenas que teriam tudo para serem picantes, mas é de grande tensão psicológica, de elucubrações, de pudor, vergonha.
De poder tentar tudo de novo. Ou de não continuar.
Eu achei por aí umas sinopses, tudo sem graça. Nem vou botar aqui.
Seguinte: O Gregório tinha uma namorada. Uma namorada mui formosa aos olhos dos varões, e um varão em especial gostava da guria: Era a Tania e o Manuel, “amigo” do malucão.
O Gregorio era esquizofrênico e vivia mais internado em hospitais psiquiátricos que em casa, e o Manuel e a Tania se aproveitavam disso amando às ocultas.
O Gregorio se recupera, sai do hospital, aparentemente bem e um belo dia mete uma bala da cabeça.
Uma amiguinha em comum dos dois, entrega ao Manuel uma caixa com umas fotos e cartas e umas lacraias muito malucas onde o Manuel começa a entrar no universo -nem tão- torpe de seu amigo e passa a encontrar padrões, verdades e surpresas terríveis ao se dar conta de uma série de eventos que passsaram desapercebido por ele.
É, o Gregorio tinha problemas, sim. O cara era maluco mesmo. O Manuel não tinha. Mas passa a ter.
“Tá vendo esse machucado??? Foram as lacraias que entraram por aqui. Elas andam pelo meu corpo, foram para o meu cérebro, abriram minhas veias para passar mais sangue para o meu cérebro.”
Eu achava que fosse alguma droga, mas era lacraia mesmo. O bichinho é feio, e por um instante achei que fossem reais, no contexto do filme. Na verdade, eram. E fizeram o serviço bem.
O final é surpreendente, e resgata o princípio das dores do filme de forma impressionante. Um gordinho que eu não lembro o nome, fora incumbido de cuidar da Tania por Gregorio, fala pro Manuel (quando ele tá preso por ter descarregado um 38 num lobo de zoológico) que quando se está num hospital psiquiátrico, a pessoa se agarra com todas as forças na corda que aparece. “Sabe qual era a corda de Gregorio??? A Tania, e você tirou a corda dele”.
Se esse gordin falasse no começo, tudo seria muito mais claro, mas menos envolvente, intenso. Os flashbacks do Manuel com o Gregorio são confusos e dispersos no filme, mas enriquecem e muito a interpretação dos eventos.
Aliás, essa Tania ae é que era a ultra-carente. Não resistiu a distância de Gregorio, mostrando uma dependência feminina e envolveu-se com Manuel, uma dependência masculina. Até a amiga dela sabia, mas as duas mantinham uma distância tensa: Talvez porque tinham suas carências com objetos comuns, e portanto conflitivos, mantiveram um pacto silencioso de aceitar qualquer regra do jogo de uma paixão bem carnal e instintiva.

O Gregorio mostrou através de seus próprios olhos doentes e mortos o que ele padeceu, das lacraias, do búfalo a respirar no seu pescoço todas as noites, de ver a Tania sair de sua vida tão rapidamente quanto entrou, de transar com outra(s) mas não ter nenhum desejo ou prazer disso, de ter um homem próximo a ela que conhecia, mas agora mudou e é estranho, e de querer ouvir ela, pelo menos a última vez, mesmo sabendo que é mentira, que o ama. Doentio.