Um gato - Dum fragmento de texto
O gato ae serviria só pra ambientar o leitor, mas acabei gostando dele… Seria para apresentar o cenário, daí a casa, que apresenta um casal que vai se matar, que apresenta outros lugares e outras personagens e vai, vai, até ter elementos suficientes pra convencer da maluquice de morrer duas vezes… Aí a coisa começa mesmo.
Falar de religião é terrivelmente complicado.
Um gato
Um gato, preto, vai ser soterrado com muito lixo. Numa rua vasta e movimentadíssima da megalópole interior (megín, na cyslang), contêineres de lixo enchem até transbordar quando os edifícios acionam a liberação de detritos. Claro que a maioria nem possui mais a parte mecânica, e a compactação de lixo quer dizer peças fortes para roubar.
É pelos dutos que restaram que o lixo e os felinos e outras coisas vêm e vão.
O gato sabe que todo dia, no mesmo horário, o lixo inorgânico vem pela manhã bem cedo. Então os veículos silenciosos do governo aspiram magneticamente o que é condutor, não condutor e semicondutor. São naves que usam a via do trânsito, voam baixo, apesar de serem naves. Como hovercrafts, são terríveis de manobrar e transitam pelas vias maiores de forma penosamente devagar.
O felino em questão odeia esse hover, porque ele é silencioso para os humanos, mas produz um silvo infernal para gatos, ratos, morcegos, cães, mosquitos e outros que escutam coisas além do espectro da habitual fala humana. Alguns mechas e equipamentos muito antigos ou muito avançados notificam interferência quando o lixo inorgânico é limpo. Mas não é nada demais.
De qualquer forma, todos saem correndo quando um desses se aproxima.
Após pegar o que interessa, resta no fundo, dos dias anteriores, o que é orgânico. A construção que não possui reciclagem própria de comida precisa expelir tudo no contêiner e é aí que o gato preto entra.
Entra no contêiner, e se tiver sorte, haverá proteína texturizada, que ele gosta muito, e aminoácido sabor peixe, uma iguaria além que de deliciosa é nutritiva, mas o que é fácil de achar é centenas de caixinhas de comida liofilizada importada vazios, mas às vezes com algum resto de comida. Uma vez provou algo estranho, dentro de um potinho branco, uma pasta saborosa até, mas nunca mais encontrou outro. Sempre tem esperanças de encontrar novamente o tal potinho.
Poucos gatos sabem disso, e nenhum humano são se permitiria entrar no contêiner, porque é perigoso demais e apertado demais para entrar, então quase não há concorrência. Uma vez apareceu um macaquinho, feio e sujo, mas nunca mais o viu.
Saber quando é hora de ir embora é fácil. Quando o Caminhão Orgânico se aproxima, o contêiner o cumprimenta e abre suas comportas superiores. Então foge-se pelos dutos flexíveis, porque sua textura de traquéia permite a escalada ou pelas ventilações quando o exaustor de lá está quebrado (desde que saiba como achar uma saída boa) ou subindo em algo para sair por cima, o que nem sempre é possível.
As comportas de baixo se abrem, e o lixo orgânico cai no contêiner do caminhão, guiado por campos (de força) laterais. Apesar disso um pouco de lixo sempre cai, para o deleite dos vizinhos.
Uma vez o lixo era escoado por dutos subterrâneos, como o esgoto, mas bolaram um jeito de desviar, de desmontar, de sabotar etc. de forma que o civil tornou inviável tal forma de excreção. Então voltaram a coleta, mas em proporções gigantes e com uma segurança intolerante. O lixo vale bastante e uma revolta aconteceu por isso. O lixo ficava com o governo, e ele recicla-o e o revende na forma de produtos. Não havia uma solução convincente para o lixo vinda de civil e empresas privadas eram desencorajadas pelo governo através de coação e privações de direitos por métodos pouco ortodoxos.
Por fim, remédios, circuitos, matérias-primas, toda a pirâmide alimentar e baterias reciclados pertencem ao governo. Houve protestos e até pequenas guerras e muitos atentados terroristas seqüestrando, explodindo e crackeando tudo associado ao totalitarismo da época.
Porém, de certa forma, o mercado negro estava crescendo porque as pessoas passaram a gostar das fontes diferentes de diferentes coisas, a ponto de o mercado informal estar arrecadando mais que o governo.
Ora, até as drogas, e pirataria de informação, monopólio do governo, que estavam sendo sintetizadas e obtidas em outros países, poderia obter graças ao contrabando ou poderia obter-se um equivalente alucinógeno mais viável ou um código-fonte ou um relatório espião de uma empresa similar ou contra-espionagem desde que, principalmente, que não do governo.
Até que o próprio governo entrou no mercado negro. De forma sutil mas persistente, patrocinando traficantes e gângsteres dos mais escusos negócios, conquistou anonimamente quase todos os nichos de mercado, exceto um. O da AI. Isso porque o governo tinha, oficialmente, um órgão responsável pelo descobrimento, desenvolvimento e registro de patentes associadas a Inteligência Artificial, mas o mercado negro tinha outros rumos para esse nicho de mercado tão promissor quanto as vacinas (e toxinas) inteligentes, da nanotecnologia recons (reconstituição de tecidos) e de augs (augmentations), e do reax (real action experiment ou experience), que tem tudo a ver com isso tudo e mais.
Mas isso é assunto para depois. Voltemos ao gato.
Ele estava lambendo uma caixinha de comida rehidratada quando edifício achou que o nível de lixo orgânico estava alto, mesmo tendo aliviado logo após seu lixo inorgânico ter sido recolhido. Era à tardinha e os milhares de habitantes de seu complexo estavam quase todos em casa e produzindo bastante lixo, devido ao toque de recolher da Semana Terrível.
Aquilo não era normal. E o gato, esperando o caminhão barulhento de motor à explosão e muitas rodas, ouviu um som estranho de centenas de caixinhas de papelão e termoplástico de resina e restos de comida e de conchas higiênicas e sacos com toda sorte de porcarias e tudo mais que, a critério do prédio, julgava pesado e incômodo, estava a descer com toda a velocidade da gravidade pelo peristaltismo dos dutos elásticos.
Bum! E o som abafado de muita coisa caindo por cima até tudo ficar escuro, e apertado, e o som cada vez mais distante, acima, de coisas caindo.
Silêncio. Calor. O gato ficou ensopado com um suco orgânico reconstituído de laranja, ou algo que tentava imitar isso. Por sorte, uma caixinha era grande, e havia muitas caixinhas estavam dentro dessa caixinha, de forma que ele estava apertado, mas não esmagado pelas coisas lá em cima.
Deve ter sido algum defeito nessa porcaria de edifício inteligente.
O gato estava tenso, e ficou ainda mais ao saber que não podia abrir caminho para cima. Teve que passar seu pêlo sedoso por muitas caixas e copos e sacos de lixo e restos de amido reciclado (que todo mundo compra mas ninguém come tudo) dos mais variados sabores artificiais e nos mais variados estados de fermentação. Passou por algo pontudo, que machucou sua orelha e suas costas ao se espremer entre uma concha higiênica usada e muitos absorventes internos fedidos e inchados de sangue e secreção vaginal que por alguma razão estavam junto de material cirúrgico num saco que o felino rasgou para passar.
Passou por um gato morto, o que lhe causou um desconforto. Estava inchado, devia ter morrido faz tempo. Cheirou-o, esperou algo. Nada. Olhou em volta. Sujeira, lixo, coisas que botam fora. Seguiu viagem.
O gato pensou que deve ser mais cuidadoso ou morrerá como aquele gato, seja lá o que for que o matou.
Nesses tempos, os campos verdejantes não mais existem, ou existem muito longe daqui, ou são caros demais para que saibamos que existam. O gado é raro, e as galinhas transgênicas são produzida de forma espantosamente grande, apesar do gosto de antibiótico que possuem, é a fonte protéica mais próxima do que havia na terra de forma natural. A soja, os grãos, frutas, os carboidratos complexos, proteína, aminoácidos, enzimas etc. são caros na forma integral. Até são plantados, mas alguns países nem importam porque o custo é extremamente exorbitante, apesar do lucro ser gordo, porém se é que há lucro, pois a carga geralmente pára em algum saque de piratas para sumir no mercado negro.
O jeito é sintetizar. Obter algo de forma massiva e barata, colocar gosto artificial, textura de chiclete, maquiar com o que é barato e vender como se fosse algo.
Variações genéticas de toda a sorte de coisas que reproduzem rápido e com baixos investimentos é o que mais movimenta a indústria alimentícia. A soja foi tão modificada que agora parece mais um gergelim de antigamente, mas é produzida em escalas inimagináveis em culturas de estufas como uma estante de centenas de metros de altura. Cada andar com seus inúmeros sóis artificiais. Tem gosto de pano velho. Algas, fungos, liquens e plâncton também são uma opção, e outros seres autótrofos de lugares inóspitos. A indústria não pára de inventar coisas sem gosto que parecem algo que não são para vender.
Larvas de mosca, moluscos sem concha e alguns peixes de couro são fontes protéicas de baixo custo e de alta adaptabilidade. Criadas em um espaço ínfimo, se alimentam de qualquer coisa e procriam de forma espantosamente rápida: A partir de casal de moscas produz-se In vitro seis toneladas de larvas em um mês. Evidentemente, a larva agora é maior e é só uma larva: elas procriam por partenogênese larvária e nunca transformam-se em moscas, e produzida numa quantia que dê todo o lucro necessário, ou seja, com o peso da areia dos mares.
Uma fazenda, com um cachorro dormindo, cavalos troteando alegremente ao sol, longe, e vacas que dão leite são um sonho vago que o gato tem, porque seus ancestrais viveram nesses tempos bons, e é lugar de gato. Uma casa de madeira de árvore na beira da praia com um casal de pescadores tirando peixes suculentos da rede seria também o lugar de gato. Um contêiner cheio de muitas toneladas de lixo intragável e sintético não é lugar de gato.
O lugar de gato dele é num apartamento pequeno, com dois humanos. Até que os dois o tratam muito bem, mas… Mas isso virá depois. Vamos ao gato.
Passando por mais coisas insuportavelmente fétidas, o gato imagina o que vai ter que lamber do seu pêlo se sair dessa vivo. Já está muito cansado de se puxar entre coisas frias, moles, viscosas, duras, adesivas, quentes, imantadas, geladas, sólidas, mornas, ásperas, lisas, cortantes, esmagadoras, peludas, farelentas, liquidas… Tanto que bons bocados de sua pelagem ficou aos poucos, arrancadas aos tufos, por onde passava e era muito apertado. O gato pensava que eles servem para isso, mas dá muito dó ver seus pêlos deixados para trás depois de tanto cuidado.
Quando quase não havia esperanças e já tinha feito a vigésima oitava grande parada para descansar foi que notou que podia erguer com as costas o lixo acima. A superfície estava próxima.
Num novo fôlego, forçou-se entre saquinhos de lixo e muito entulho pequeno até respirar a plenos pulmões, acima das coisas que jogam fora.
Tudo correu mais ou menos bem, a não ser o dolorido em várias partes do corpo, o corte na orelha e nas costas, e de estar com fome. Muita fome.
Caminhou muito até chegar à borda, tropeçando e afundando no lixo de vez em quando. Deu um pulo para a ventilação, e notou que sua capacidade de orientação não estava muito boa. Pulou mal, e teve que se agarrar com as unhas doídas e cansadas na borda do exaustor quebrado para subir.
Na realidade era uma só uma turbina leve que entortou e travou antes que a construção notasse, superaqueceu e queimou. Nenhuma aranha mecânica foi arrumar e o gato achava até que as aranhas tinham sumido, todas.
Uma vez, quando era um gato bem jovem (o que não faz muito tempo) uma aranha dessas lhe deu um belo beliscão quando foi pego perambulando no tubo flexível. Na realidade ela iria eletrocutá-lo, mas algo deu errado na aranha e o gato saiu, com a perna manca e zonzo, para casa.
Não gostou da lembrança e temeu ver uma daquelas coisas metálicas e cheias de pontas: Não adianta nem morder e arranhar aquelas coisas, ponderou.
Andou um bocado, escalou um duto inclinado, passou por cinco entradas acima, duas abaixo e uma para direita, então voltou.
A entrada da direita era nova, e tinha cheiro de queimado. Espreitou cautelosamente cada milímetro da borda e, muito meticulosamente, espiou lá dentro. Nada. Uma sala escura. Um salão aliás. Não conseguiu ver o chão, nem nenhuma parede, o que fez pensar que o lugar era terrivelmente grande.
Prosseguiu viagem. Talvez quando estiver recuperado vá explorar o local novo.
Após passar pelas entradas habituais, entrou no tubo habitual e como sempre, caminhou pelo canto dum duto maior, por onde passaria uma pessoa abaixada, se fosse pequena. O gato passava pela esquerda, porque tinha fios estranhos de todas as espessuras passando por lá. Alguns até alguns um pouco luminosos, por onde fluía uma coisa viscosa e umas coisinhas granuladas e irregulares latejando em dois sentidos. Seguiu-o. No fim desse duto maior, já dava para sentir o cheiro da sua urina. Marcara o território até ali. De lá para frente as coisas eram novidade e mais explorações precisam ser realizadas.
O duto acabava abruptamente com uma inclinação para baixo, num fosso do elevador de transporte, bem grande comparado ao de pessoas.
Ali esperaria até o horário de o elevador descer e subir novamente para saltar sobre ele e subir até o último andar, e novamente entrar nos dutos e andar muito tempo até achar o duto habitual e seguir o vento habitual por muito tempo até chegar, finalmente, em casa.
Não tinha certeza se iria conseguir caminhar tudo que deveria, mas é incomparavelmente pouco se fosse pelas escadas, ou pelos dutos, onde facilmente se perderia e morreria de inanição.
O elevador de transporte, além de ser muito grande e fácil de achar, é devagar. Isso aumenta o tempo de espera, mas garante que no final do salto, os felinos não sejam esmagados, como ocorreria no elevador de pessoas.
Como não resta mais nada a fazer, o gato senta a uma distância segura da beirada e começa o banho.
Depois de estar um pouco mais limpo (tirou de seu pêlo machucado adesivos de nicotina, amido fermentado, proteína velha, uma agulha de seringa, chips queimados, tecido conjuntivo humano e uma infinidade de outras coisas nojentas e grudentas) finalmente escuta o zumbido grave do grande elevador. Já estava subindo e, olhando para o poço via a débil luz amarelada subindo nas paredes cobertas de cabos, tubos e dutos encardidos e esquecidos. Alguns funcionavam. Outros abrigavam escorpiões-vinagre, lagartos, morcegos necrófagos e insetívoros (os herbívoros sumiram ou adaptaram-se), aquelas aranhas de pernas e teias muito grandes (o opilião). O gato não sabe o nome desses bichos, mas respeita a todos. Uma miríade de criaturas que tempos atrás habitariam o teto de cavernas se viram como podem em constituir um frágil ecossistema onde o homem não se importa.
O gato vai para a beira da saída. Um vento constante o empurra para dentro do duto, em direção ao lixo. A sua volta tudo está iluminado pelos refletores, vultos nas paredes se escondem como podem, assustados. Vai saltar. E o pulo.
Gatos saltam muito bem, e aquele gato gostava de saltar. E pousou bem em cima de uma chapa lisa e quente, em perto de um refletor. Foi para uma grade poeirenta de exaustão rapidamente, e foi se encolher perto das baterias de emergência, uma caixa muito grande de ferro e sem perigo aparente. Girou e fez uma bolinha de gato, deitou sua cabeça sobre uma pata (às vezes a trepidação fazia ele bater a cabeça na chapa do chão), e lá esperou.
O elevador subia, lentamente, a velocidade de um homem preguiçoso correndo. Um polígono irregular de uns cem metros por cinqüenta, forjado numa massa de ferro bem antiga, cheia de frestas, grades arrancadas, lâmpadas antiguíssimas de mercúrio, portas principais emperradas, auxiliares pequenas funcionando precariamente.
Antigamente uma infinidade de sensores mantinha a pressão dos fluídos, mediam o volume de ar das exaustões, controlavam a capacidade de carga (que nem nos anos dourados chegou na capacidade máxima), carregadores para os veículos pequenos e havia um pequeno café até, para relaxar durante a viagem acima ou abaixo e muitas outras comodidades eletrônicas. Nenhuma sobreviveu ao tempo: a capacidade corrosiva do que se apossa do que não é devido.
Essa construção é bem grande e o gato sabe disso, e tem medo disso.
Mas ele agora repousa. Com leves baques e sacudidelas, prossegue seu trajeto para cima. Passado um bom tempo de paradas e de veículos dos mais variados barulhos de motores entrando e saindo, sente um incômodo no ouvido e uma náusea cada vez mais crescente. Estavam subindo mais rápido que de costume. Estavam porque, quando o elevador parou para um carro bonito e de zumbido baixo e grave (era um hover ultraveloz para entregas de emergência) sair, penosamente devagar, viu um outro gato, bem longe, perto de um dos atratores de teto, olhando-o fixamente.
Era um gato amarelo, gordo, bem bonito até. Mas estava cansado demais para ir até lá. Resolveu voltar a descansar.
Num dado momento, quase uma hora e meia depois do embarque, o elevador chega finalmente no outro atrator. Um feixe de atração confinado a ir numa direção, como uma corrente de luz, atraindo o outro feixe emitido pelo elevador, entrelaçando os dois, faz o elevador subir e descer pesos absurdos. Há motores tracionando na parede também, mas somente compensam alguma irregularidade. Quando chegam a se tocar, são automaticamente desligados, pois esmagariam todo o metal e o dínamo de eletrostática acima. Fica tudo a encargo dos motores nas paredes, travas e os contrapesos, simbólicos apenas, deixar suspenso todo o aparato a uma altura incrível.
O gato acordou, espreguiçou, esticou as patas de trás, as da frente e bocejou longamente. Uma bocarra escancarada, e se lambeu um pouco.
Caminhou até o outro lado, desviando dos fios soltos, passando debaixo de barras de ferro e subindo em compartimentos esquecidos e amassados. Tudo ali era coberto com uma fuligem úmida, quase gordurosa e de cheiro ruim.
Chegou à outra parede, que agora passava bem devagar, e no teto já se viam os inúmeros atratores, reluzindo azul e dando uns estalos elétricos em arco de um para outro. Era tempo de pular. Numa grande abertura circular na parede ele correu e entrou. Entre o elevador e a parede havia uma distância que, se ele olhasse para infinito abaixo, morreria só de ver.
Arrepiou-se ao tocar o chão no outro lado. Era a estática intensa formada lá fora. Correu para dentro, e galgou canos e tubos e dutos e paredes e tubos flexíveis furados e lixo e pó e exaustões e ventilações até achar uma, a uma que era habitual. E lá se foi, feliz por estar vivo e de estar perto do conforto de casa.
A casa (té que enfiiiim!!!)
O gato, que sabia que a exaustão de sua casa estava intencionalmente desligada (porque o humano que partilhava a casa respeitava as incursões noturnas de felinos, apesar do calor infernal se fosse verão). Passou pela grade dos corredores. Não havia ninguém, exceto um bot de limpeza, parado encima do último lugar que limpou.
Os bots de limpeza são respeitados. Como roedores, baratas, traças, piolhos de cobra, moscas, besouros, cães e outros consumidores de detritos se ausentaram ou modificaram-se misteriosamente nos altos edifícios, quem limpa os labirintos de corredores nos andares são os opacos cones de metal com braços articulados. Eles sabem tudo que recolheram, devolvem tudo aos seus respectivos donos, tudo ensacado e separado, e optaram por vontade própria não monitorar os moradores para o governo, destruindo seus receptores de vídeo e seu link com servidores do governo. Portanto são cegos, e perambulam por aí por ultra-som, e não podem ser atualizados, o que é algo de muito heróico para um robô e para um humano.
Os moradores desde então respeitaram este serviçal, e se algo é necessário para a manutenção deles, é imediatamente fornecido. Se acontece um tiroteio e um bot de limpeza aparece, as gangues cessam os disparos. Se alguém é mau com um bot de limpeza, esse alguém vai ser odiado para sempre (pelo menos na construção do ocorrido), e vai fornecer o que for para o bot restaurar-se.
Os bots não gostam muito de gatos, mas não os deduram por perambularem em dutos proibidos.
Às vezes os bots também andam em locais proibidos, e gatos sabem disso. Talvez o bot, numa forma que não compreende (ou os humanos não compreendem) faz silêncio para que esse duplo segredo perdure à ciência dos homens.
E esse bot de limpeza viu o gato. Melhor, detectou uma oscilação na freqüência da grade no corredor e ajustou a onda para “enxergar” os ossos do gato através da grade. “Um gato”, deduziu definitivamente. “Um gato com uma fissura no fêmur esquerdo. Deve doer.”, observou consigo.
Parece estranho uma torradeira com rodinhas flexíveis saber que um gato é um gato, e que o gato possui um fêmur, um fêmur fissurado, e constatar que isso dói. Mais estranho ainda é o que se pode encontrar no lixo, e estranhíssimo é um bot de limpeza dedicar-se a aprender com o lixo que recolhe e ter um museu secreto de quinquilharias no seu almoxarifado.
Dadas as estranhezas, pode-se acrescentar agora que esse bot tem um gosto literário bem crítico e realista. Ele lê porque arranjou uma webcam barata da sua época e conseguiu soldar uma pré-histórica entrada USB para utilizá-la. O driver ele mesmo fez a partir do que a webcam pedia. Mas isso faz um tempo, bem mais de duas centenas de anos. Era um bot respeitável.
E o gato notou que a lata lá embaixo o viu, e apressou o passo o que era possível, até achar uma ventilação onde o ar não entrava, só se quisesse.
Estava a poucos metros de casa. Na realidade estava encima do apartamento do seu dono, mas a entrada de ar era central. Viu um buraco no duto, com a turbina saliente para baixo, desativada, e uma luz fraca, tremeluzente, vinda de baixo. Foi até lá e cautelosamente esgueirou-se buraco adentro até se soltar para baixo, para cair encima do rack de um cluster de cpus muito variadas.
Por sorte o rack era alto, e seus doloridos não reclamaram muito. Na realidade o teto dali era bem baixo, cerca de um metro e oitenta. Aquilo era um depósito e apesar do teto baixo naquela parte, era vasto em largura.
Talvez colocassem coisas que não pudessem ser empilhadas ali, e havia marcas de cimento queimado e de pneus levando cargas muito pesadas no concreto nu e frio dali.
O rack ficava no meio da sala, e uma TV na parede estava apresentando um documentário sobre a África cheia de bichos que não existem mais. Ninguém estava assistindo. A TV era uma projeção num pano sintético branco encardido de uma lente de um computador com captura de vídeo que estava ao lado da cama.
A humana gostava de assistir TV fazendo carinho no gato. A cama, uma cama de casal grande, feita de molas duras, guardadas individualmente em sacos, fora fabricada em tempos imemoriais. Grande parte da forração e do algodão se foram. Cobertores amassados e bagunçados estão sobre ele.
O gato pensa em deitar-se lá, mas está com muita sede e fome. Vai para a parte do depósito denominada cozinha. Uma parede parcialmente derrubada divide a cozinha do resto da casa (que é a sala e o banheiro). Um muro de cinqüenta centímetros de espessura de concreto puro quebrado revelando ferros contorcidos e cabos ocos a um metro do chão delimita onde há comida e água e onde há repouso e carinho.
Foi até lá. Subiu na parede quebrada. A humana estava lá, pegando algo da geladeira, e isso é bom. Pulou para o chão e roçou nas pernas dela tão suavemente como só um gato sabe fazer. Miou baixinho. Nada.
Lá debaixo o gato só via a humana mexendo em algo na pia, concentradíssima. Não sentia nenhum cheiro de comida, só o familiar odor de concreto queimado da casa.
-Que foi, gatinho? Quer comida, né? Só um pouquinho. Ela pegou uma seringa, e com a agulha para cima tirou o ar da solução dentro apertando gentilmente o êmbolo. Colocou na pia, e foi para um armário metálico onde havia a tão desejada comida.
A ração para gatos é difícil de achar, e é cara. Mas quando falta fornecimento de comida para todos, é um almoço completo, e dura bastante sem precisar de refrigeração. A comida liofilizada dura também, mas não é tão nutritiva ou saborosa quanto ração de gato.
-Toma felino. Abriu um pacote cinza brilhante cheio de letras e tabelas com o desenho rudimentar de um gato (era uma ração genérica importada, claro) e despejou um pouquinho num copo metálico, e pôs no chão. O gato avançou na comida, e tinha um sabor… Bom, um sabor de comida.
Ela beliscou um pouco de ração, olhou a figura borrada do gato no pacote e leu um pouco sobre a importância duma alimentação balanceada para felinos em muitas línguas diferentes e havia uma que parecia Hexadecimal.
Encheu outro copo com água e deu para o gato. O gato bebeu.
A água é obtida em botijões de polietileno, vinda das mais improváveis origens: De naves coletoras de condensação de nuvens nimbos que não conseguem chover, das fazendas de umidade, de lençóis freáticos contaminados, da dessalinização por osmose forçada dos mares, e principalmente, de rios contaminados e do engarrafamento do líquido de lugares que ainda possuem água potável natural, como o Brasil e dos últimos degelos das montanhas que tinham neves eternas em seus cumes.
Ela ficou pensando por onde aquela água passou para parar dentro do gato.
E onde o gato passou para estar tão sujo e malcheiroso.
Pegou a seringa e forçou-a contra o braço. Havia lá dentro soro fisiológico e um bot que parecia um grão de arroz miniaturizado. Apertou o êmbolo até o bot entrar. E ele tratou de logo ir para o pescoço e lá secretar hormônios que normalmente uma tiróide produziria.
Ela tinha hipotiroidismo, que apesar das recomendações de terapia gênica para seus avós e seus pais, poderia não existir mais. Esse bot fora feito para os possuidores de uma tiróide preguiçosa, mas faz ilicitamente obesos e sedentários acelerarem o metabolismo, mesmo sob a pena de suas tiróides de verdade se tornarem preguiçosas pela falta de serviço e se tornarem inativas, e mais tarde, o corpo entender que ela é inimiga do corpo e consumí-la sob hostes de macrófagos.
Esfregou a agulha na pia até quebrar, colocou-a dentro do êmbolo e descartou-a.
O gato mastigava sonoramente.
Ela foi até a cama e se esparramou lá. Havia um pote de pipoca pela metade, e ela o pegou.
Entenda pipoca como uma iguaria, pois plantar sem ser visto é complicado, mas um amigo dela plantava numa estufa no terraço. Amizades variadas e influentes são importantíssimas na sobrevivência dos humanos. E seu namorado não possui muitas.
Aliás seu homem passava as poucas horas que não estava no hospital de bruços num projeto idiota de uma secretária eletrônica.
Já havia todo o tipo de variação de Inteligências Artificiais, todas comerciais, e um grupo de programadores open-sauce, source, sei lá, que insistia em fazer uma que todos poderiam ver “como funciona por dentro”.
Ela morria de ciúmes e rendia madrugadas discutindo relacionamentos. Achava impensável trocar sua companhia feminina por solda, circuitos e uma miríade de letrinhas oscilando no monitor, e o chat.
O Chat era onde as informações eram trocadas, textos e arquivos sobre uma droga de secretária eletrônica.
Que idiota, ele…
