Monday, December 10, 2007

Um gato - Dum fragmento de texto

Se eu continuar postado coisas para que os posts anteriores façam nexo, vô acabar postando todos os contos e fragmentos… Chega. Tão cedo não vou postar texto meu aqui. Vai que alguém copia e nem cita a fonte?!?!?! Muita xaropada por copyright, e eu que não quero ser chato com isso.
O gato ae serviria só pra ambientar o leitor, mas acabei gostando dele… Seria para apresentar o cenário, daí a casa, que apresenta um casal que vai se matar, que apresenta outros lugares e outras personagens e vai, vai, até ter elementos suficientes pra convencer da maluquice de morrer duas vezes… Aí a coisa começa mesmo.
Falar de religião é terrivelmente complicado.

Um gato

Um gato, preto, vai ser soterrado com muito lixo. Numa rua vasta e movimentadíssima da megalópole interior (megín, na cyslang), contêineres de lixo enchem até transbordar quando os edifícios acionam a liberação de detritos. Claro que a maioria nem possui mais a parte mecânica, e a compactação de lixo quer dizer peças fortes para roubar.

É pelos dutos que restaram que o lixo e os felinos e outras coisas vêm e vão.

O gato sabe que todo dia, no mesmo horário, o lixo inorgânico vem pela manhã bem cedo. Então os veículos silenciosos do governo aspiram magneticamente o que é condutor, não condutor e semicondutor. São naves que usam a via do trânsito, voam baixo, apesar de serem naves. Como hovercrafts, são terríveis de manobrar e transitam pelas vias maiores de forma penosamente devagar.

O felino em questão odeia esse hover, porque ele é silencioso para os humanos, mas produz um silvo infernal para gatos, ratos, morcegos, cães, mosquitos e outros que escutam coisas além do espectro da habitual fala humana. Alguns mechas e equipamentos muito antigos ou muito avançados notificam interferência quando o lixo inorgânico é limpo. Mas não é nada demais.

De qualquer forma, todos saem correndo quando um desses se aproxima.

Após pegar o que interessa, resta no fundo, dos dias anteriores, o que é orgânico. A construção que não possui reciclagem própria de comida precisa expelir tudo no contêiner e é aí que o gato preto entra.

Entra no contêiner, e se tiver sorte, haverá proteína texturizada, que ele gosta muito, e aminoácido sabor peixe, uma iguaria além que de deliciosa é nutritiva, mas o que é fácil de achar é centenas de caixinhas de comida liofilizada importada vazios, mas às vezes com algum resto de comida. Uma vez provou algo estranho, dentro de um potinho branco, uma pasta saborosa até, mas nunca mais encontrou outro. Sempre tem esperanças de encontrar novamente o tal potinho.

Poucos gatos sabem disso, e nenhum humano são se permitiria entrar no contêiner, porque é perigoso demais e apertado demais para entrar, então quase não há concorrência. Uma vez apareceu um macaquinho, feio e sujo, mas nunca mais o viu.

Saber quando é hora de ir embora é fácil. Quando o Caminhão Orgânico se aproxima, o contêiner o cumprimenta e abre suas comportas superiores. Então foge-se pelos dutos flexíveis, porque sua textura de traquéia permite a escalada ou pelas ventilações quando o exaustor de lá está quebrado (desde que saiba como achar uma saída boa) ou subindo em algo para sair por cima, o que nem sempre é possível.

As comportas de baixo se abrem, e o lixo orgânico cai no contêiner do caminhão, guiado por campos (de força) laterais. Apesar disso um pouco de lixo sempre cai, para o deleite dos vizinhos.

Uma vez o lixo era escoado por dutos subterrâneos, como o esgoto, mas bolaram um jeito de desviar, de desmontar, de sabotar etc. de forma que o civil tornou inviável tal forma de excreção. Então voltaram a coleta, mas em proporções gigantes e com uma segurança intolerante. O lixo vale bastante e uma revolta aconteceu por isso. O lixo ficava com o governo, e ele recicla-o e o revende na forma de produtos. Não havia uma solução convincente para o lixo vinda de civil e empresas privadas eram desencorajadas pelo governo através de coação e privações de direitos por métodos pouco ortodoxos.

Por fim, remédios, circuitos, matérias-primas, toda a pirâmide alimentar e baterias reciclados pertencem ao governo. Houve protestos e até pequenas guerras e muitos atentados terroristas seqüestrando, explodindo e crackeando tudo associado ao totalitarismo da época.

Porém, de certa forma, o mercado negro estava crescendo porque as pessoas passaram a gostar das fontes diferentes de diferentes coisas, a ponto de o mercado informal estar arrecadando mais que o governo.

Ora, até as drogas, e pirataria de informação, monopólio do governo, que estavam sendo sintetizadas e obtidas em outros países, poderia obter graças ao contrabando ou poderia obter-se um equivalente alucinógeno mais viável ou um código-fonte ou um relatório espião de uma empresa similar ou contra-espionagem desde que, principalmente, que não do governo.

Até que o próprio governo entrou no mercado negro. De forma sutil mas persistente, patrocinando traficantes e gângsteres dos mais escusos negócios, conquistou anonimamente quase todos os nichos de mercado, exceto um. O da AI. Isso porque o governo tinha, oficialmente, um órgão responsável pelo descobrimento, desenvolvimento e registro de patentes associadas a Inteligência Artificial, mas o mercado negro tinha outros rumos para esse nicho de mercado tão promissor quanto as vacinas (e toxinas) inteligentes, da nanotecnologia recons (reconstituição de tecidos) e de augs (augmentations), e do reax (real action experiment ou experience), que tem tudo a ver com isso tudo e mais.

Mas isso é assunto para depois. Voltemos ao gato.

Ele estava lambendo uma caixinha de comida rehidratada quando edifício achou que o nível de lixo orgânico estava alto, mesmo tendo aliviado logo após seu lixo inorgânico ter sido recolhido. Era à tardinha e os milhares de habitantes de seu complexo estavam quase todos em casa e produzindo bastante lixo, devido ao toque de recolher da Semana Terrível.

Aquilo não era normal. E o gato, esperando o caminhão barulhento de motor à explosão e muitas rodas, ouviu um som estranho de centenas de caixinhas de papelão e termoplástico de resina e restos de comida e de conchas higiênicas e sacos com toda sorte de porcarias e tudo mais que, a critério do prédio, julgava pesado e incômodo, estava a descer com toda a velocidade da gravidade pelo peristaltismo dos dutos elásticos.

Bum! E o som abafado de muita coisa caindo por cima até tudo ficar escuro, e apertado, e o som cada vez mais distante, acima, de coisas caindo.

Silêncio. Calor. O gato ficou ensopado com um suco orgânico reconstituído de laranja, ou algo que tentava imitar isso. Por sorte, uma caixinha era grande, e havia muitas caixinhas estavam dentro dessa caixinha, de forma que ele estava apertado, mas não esmagado pelas coisas lá em cima.

Deve ter sido algum defeito nessa porcaria de edifício inteligente.

O gato estava tenso, e ficou ainda mais ao saber que não podia abrir caminho para cima. Teve que passar seu pêlo sedoso por muitas caixas e copos e sacos de lixo e restos de amido reciclado (que todo mundo compra mas ninguém come tudo) dos mais variados sabores artificiais e nos mais variados estados de fermentação. Passou por algo pontudo, que machucou sua orelha e suas costas ao se espremer entre uma concha higiênica usada e muitos absorventes internos fedidos e inchados de sangue e secreção vaginal que por alguma razão estavam junto de material cirúrgico num saco que o felino rasgou para passar.

Passou por um gato morto, o que lhe causou um desconforto. Estava inchado, devia ter morrido faz tempo. Cheirou-o, esperou algo. Nada. Olhou em volta. Sujeira, lixo, coisas que botam fora. Seguiu viagem.

O gato pensou que deve ser mais cuidadoso ou morrerá como aquele gato, seja lá o que for que o matou.

 

Nesses tempos, os campos verdejantes não mais existem, ou existem muito longe daqui, ou são caros demais para que saibamos que existam. O gado é raro, e as galinhas transgênicas são produzida de forma espantosamente grande, apesar do gosto de antibiótico que possuem, é a fonte protéica mais próxima do que havia na terra de forma natural. A soja, os grãos, frutas, os carboidratos complexos, proteína, aminoácidos, enzimas etc. são caros na forma integral. Até são plantados, mas alguns países nem importam porque o custo é extremamente exorbitante, apesar do lucro ser gordo, porém se é que há lucro, pois a carga geralmente pára em algum saque de piratas para sumir no mercado negro.

O jeito é sintetizar. Obter algo de forma massiva e barata, colocar gosto artificial, textura de chiclete, maquiar com o que é barato e vender como se fosse algo.

Variações genéticas de toda a sorte de coisas que reproduzem rápido e com baixos investimentos é o que mais movimenta a indústria alimentícia. A soja foi tão modificada que agora parece mais um gergelim de antigamente, mas é produzida em escalas inimagináveis em culturas de estufas como uma estante de centenas de metros de altura. Cada andar com seus inúmeros sóis artificiais. Tem gosto de pano velho. Algas, fungos, liquens e plâncton também são uma opção, e outros seres autótrofos de lugares inóspitos. A indústria não pára de inventar coisas sem gosto que parecem algo que não são para vender.

Larvas de mosca, moluscos sem concha e alguns peixes de couro são fontes protéicas de baixo custo e de alta adaptabilidade. Criadas em um espaço ínfimo, se alimentam de qualquer coisa e procriam de forma espantosamente rápida: A partir de casal de moscas produz-se In vitro seis toneladas de larvas em um mês. Evidentemente, a larva agora é maior e é só uma larva: elas procriam por partenogênese larvária e nunca transformam-se em moscas, e produzida numa quantia que dê todo o lucro necessário, ou seja, com o peso da areia dos mares.

Uma fazenda, com um cachorro dormindo, cavalos troteando alegremente ao sol, longe, e vacas que dão leite são um sonho vago que o gato tem, porque seus ancestrais viveram nesses tempos bons, e é lugar de gato. Uma casa de madeira de árvore na beira da praia com um casal de pescadores tirando peixes suculentos da rede seria também o lugar de gato. Um contêiner cheio de muitas toneladas de lixo intragável e sintético não é lugar de gato.

O lugar de gato dele é num apartamento pequeno, com dois humanos. Até que os dois o tratam muito bem, mas… Mas isso virá depois. Vamos ao gato.

Passando por mais coisas insuportavelmente fétidas, o gato imagina o que vai ter que lamber do seu pêlo se sair dessa vivo. Já está muito cansado de se puxar entre coisas frias, moles, viscosas, duras, adesivas, quentes, imantadas, geladas, sólidas, mornas, ásperas, lisas, cortantes, esmagadoras, peludas, farelentas, liquidas… Tanto que bons bocados de sua pelagem ficou aos poucos, arrancadas aos tufos, por onde passava e era muito apertado. O gato pensava que eles servem para isso, mas dá muito dó ver seus pêlos deixados para trás depois de tanto cuidado.

Quando quase não havia esperanças e já tinha feito a vigésima oitava grande parada para descansar foi que notou que podia erguer com as costas o lixo acima. A superfície estava próxima.

Num novo fôlego, forçou-se entre saquinhos de lixo e muito entulho pequeno até respirar a plenos pulmões, acima das coisas que jogam fora.

 

Tudo correu mais ou menos bem, a não ser o dolorido em várias partes do corpo, o corte na orelha e nas costas, e de estar com fome. Muita fome.

Caminhou muito até chegar à borda, tropeçando e afundando no lixo de vez em quando. Deu um pulo para a ventilação, e notou que sua capacidade de orientação não estava muito boa. Pulou mal, e teve que se agarrar com as unhas doídas e cansadas na borda do exaustor quebrado para subir.

Na realidade era uma só uma turbina leve que entortou e travou antes que a construção notasse, superaqueceu e queimou. Nenhuma aranha mecânica foi arrumar e o gato achava até que as aranhas tinham sumido, todas.

Uma vez, quando era um gato bem jovem (o que não faz muito tempo) uma aranha dessas lhe deu um belo beliscão quando foi pego perambulando no tubo flexível. Na realidade ela iria eletrocutá-lo, mas algo deu errado na aranha e o gato saiu, com a perna manca e zonzo, para casa.

Não gostou da lembrança e temeu ver uma daquelas coisas metálicas e cheias de pontas: Não adianta nem morder e arranhar aquelas coisas, ponderou.

Andou um bocado, escalou um duto inclinado, passou por cinco entradas acima, duas abaixo e uma para direita, então voltou.

A entrada da direita era nova, e tinha cheiro de queimado. Espreitou cautelosamente cada milímetro da borda e, muito meticulosamente, espiou lá dentro. Nada. Uma sala escura. Um salão aliás. Não conseguiu ver o chão, nem nenhuma parede, o que fez pensar que o lugar era terrivelmente grande.

Prosseguiu viagem. Talvez quando estiver recuperado vá explorar o local novo.

Após passar pelas entradas habituais, entrou no tubo habitual e como sempre, caminhou pelo canto dum duto maior, por onde passaria uma pessoa abaixada, se fosse pequena. O gato passava pela esquerda, porque tinha fios estranhos de todas as espessuras passando por lá. Alguns até alguns um pouco luminosos, por onde fluía uma coisa viscosa e umas coisinhas granuladas e irregulares latejando em dois sentidos. Seguiu-o. No fim desse duto maior, já dava para sentir o cheiro da sua urina. Marcara o território até ali. De lá para frente as coisas eram novidade e mais explorações precisam ser realizadas.

O duto acabava abruptamente com uma inclinação para baixo, num fosso do elevador de transporte, bem grande comparado ao de pessoas.

Ali esperaria até o horário de o elevador descer e subir novamente para saltar sobre ele e subir até o último andar, e novamente entrar nos dutos e andar muito tempo até achar o duto habitual e seguir o vento habitual por muito tempo até chegar, finalmente, em casa.

Não tinha certeza se iria conseguir caminhar tudo que deveria, mas é incomparavelmente pouco se fosse pelas escadas, ou pelos dutos, onde facilmente se perderia e morreria de inanição.

O elevador de transporte, além de ser muito grande e fácil de achar, é devagar. Isso aumenta o tempo de espera, mas garante que no final do salto, os felinos não sejam esmagados, como ocorreria no elevador de pessoas.

Como não resta mais nada a fazer, o gato senta a uma distância segura da beirada e começa o banho.

Depois de estar um pouco mais limpo (tirou de seu pêlo machucado adesivos de nicotina, amido fermentado, proteína velha, uma agulha de seringa, chips queimados, tecido conjuntivo humano e uma infinidade de outras coisas nojentas e grudentas) finalmente escuta o zumbido grave do grande elevador. Já estava subindo e, olhando para o poço via a débil luz amarelada subindo nas paredes cobertas de cabos, tubos e dutos encardidos e esquecidos. Alguns funcionavam. Outros abrigavam escorpiões-vinagre, lagartos, morcegos necrófagos e insetívoros (os herbívoros sumiram ou adaptaram-se), aquelas aranhas de pernas e teias muito grandes (o opilião). O gato não sabe o nome desses bichos, mas respeita a todos. Uma miríade de criaturas que tempos atrás habitariam o teto de cavernas se viram como podem em constituir um frágil ecossistema onde o homem não se importa.

O gato vai para a beira da saída. Um vento constante o empurra para dentro do duto, em direção ao lixo. A sua volta tudo está iluminado pelos refletores, vultos nas paredes se escondem como podem, assustados. Vai saltar. E o pulo.

 

Gatos saltam muito bem, e aquele gato gostava de saltar. E pousou bem em cima de uma chapa lisa e quente, em perto de um refletor. Foi para uma grade poeirenta de exaustão rapidamente, e foi se encolher perto das baterias de emergência, uma caixa muito grande de ferro e sem perigo aparente. Girou e fez uma bolinha de gato, deitou sua cabeça sobre uma pata (às vezes a trepidação fazia ele bater a cabeça na chapa do chão), e lá esperou.

O elevador subia, lentamente, a velocidade de um homem preguiçoso correndo. Um polígono irregular de uns cem metros por cinqüenta, forjado numa massa de ferro bem antiga, cheia de frestas, grades arrancadas, lâmpadas antiguíssimas de mercúrio, portas principais emperradas, auxiliares pequenas funcionando precariamente.

Antigamente uma infinidade de sensores mantinha a pressão dos fluídos, mediam o volume de ar das exaustões, controlavam a capacidade de carga (que nem nos anos dourados chegou na capacidade máxima), carregadores para os veículos pequenos e havia um pequeno café até, para relaxar durante a viagem acima ou abaixo e muitas outras comodidades eletrônicas. Nenhuma sobreviveu ao tempo: a capacidade corrosiva do que se apossa do que não é devido.

Essa construção é bem grande e o gato sabe disso, e tem medo disso.

Mas ele agora repousa. Com leves baques e sacudidelas, prossegue seu trajeto para cima. Passado um bom tempo de paradas e de veículos dos mais variados barulhos de motores entrando e saindo, sente um incômodo no ouvido e uma náusea cada vez mais crescente. Estavam subindo mais rápido que de costume. Estavam porque, quando o elevador parou para um carro bonito e de zumbido baixo e grave (era um hover ultraveloz para entregas de emergência) sair, penosamente devagar, viu um outro gato, bem longe, perto de um dos atratores de teto, olhando-o fixamente.

Era um gato amarelo, gordo, bem bonito até. Mas estava cansado demais para ir até lá. Resolveu voltar a descansar.

Num dado momento, quase uma hora e meia depois do embarque, o elevador chega finalmente no outro atrator. Um feixe de atração confinado a ir numa direção, como uma corrente de luz, atraindo o outro feixe emitido pelo elevador, entrelaçando os dois, faz o elevador subir e descer pesos absurdos. Há motores tracionando na parede também, mas somente compensam alguma irregularidade. Quando chegam a se tocar, são automaticamente desligados, pois esmagariam todo o metal e o dínamo de eletrostática acima. Fica tudo a encargo dos motores nas paredes, travas e os contrapesos, simbólicos apenas, deixar suspenso todo o aparato a uma altura incrível.

O gato acordou, espreguiçou, esticou as patas de trás, as da frente e bocejou longamente. Uma bocarra escancarada, e se lambeu um pouco.

Caminhou até o outro lado, desviando dos fios soltos, passando debaixo de barras de ferro e subindo em compartimentos esquecidos e amassados. Tudo ali era coberto com uma fuligem úmida, quase gordurosa e de cheiro ruim.

Chegou à outra parede, que agora passava bem devagar, e no teto já se viam os inúmeros atratores, reluzindo azul e dando uns estalos elétricos em arco de um para outro. Era tempo de pular. Numa grande abertura circular na parede ele correu e entrou. Entre o elevador e a parede havia uma distância que, se ele olhasse para infinito abaixo, morreria só de ver.

Arrepiou-se ao tocar o chão no outro lado. Era a estática intensa formada lá fora. Correu para dentro, e galgou canos e tubos e dutos e paredes e tubos flexíveis furados e lixo e pó e exaustões e ventilações até achar uma, a uma que era habitual. E lá se foi, feliz por estar vivo e de estar perto do conforto de casa.

 

 

 

A casa (té que enfiiiim!!!)

 

O gato, que sabia que a exaustão de sua casa estava intencionalmente desligada (porque o humano que partilhava a casa respeitava as incursões noturnas de felinos, apesar do calor infernal se fosse verão). Passou pela grade dos corredores. Não havia ninguém, exceto um bot de limpeza, parado encima do último lugar que limpou.

Os bots de limpeza são respeitados. Como roedores, baratas, traças, piolhos de cobra, moscas, besouros, cães e outros consumidores de detritos se ausentaram ou modificaram-se misteriosamente nos altos edifícios, quem limpa os labirintos de corredores nos andares são os opacos cones de metal com braços articulados. Eles sabem tudo que recolheram, devolvem tudo aos seus respectivos donos, tudo ensacado e separado, e optaram por vontade própria não monitorar os moradores para o governo, destruindo seus receptores de vídeo e seu link com servidores do governo. Portanto são cegos, e perambulam por aí por ultra-som, e não podem ser atualizados, o que é algo de muito heróico para um robô e para um humano.

Os moradores desde então respeitaram este serviçal, e se algo é necessário para a manutenção deles, é imediatamente fornecido. Se acontece um tiroteio e um bot de limpeza aparece, as gangues cessam os disparos. Se alguém é mau com um bot de limpeza, esse alguém vai ser odiado para sempre (pelo menos na construção do ocorrido), e vai fornecer o que for para o bot restaurar-se.

Os bots não gostam muito de gatos, mas não os deduram por perambularem em dutos proibidos.

Às vezes os bots também andam em locais proibidos, e gatos sabem disso. Talvez o bot, numa forma que não compreende (ou os humanos não compreendem) faz silêncio para que esse duplo segredo perdure à ciência dos homens.

E esse bot de limpeza viu o gato. Melhor, detectou uma oscilação na freqüência da grade no corredor e ajustou a onda para “enxergar” os ossos do gato através da grade. “Um gato”, deduziu definitivamente. “Um gato com uma fissura no fêmur esquerdo. Deve doer.”, observou consigo.

 

Parece estranho uma torradeira com rodinhas flexíveis saber que um gato é um gato, e que o gato possui um fêmur, um fêmur fissurado, e constatar que isso dói. Mais estranho ainda é o que se pode encontrar no lixo, e estranhíssimo é um bot de limpeza dedicar-se a aprender com o lixo que recolhe e ter um museu secreto de quinquilharias no seu almoxarifado.

 

Dadas as estranhezas, pode-se acrescentar agora que esse bot tem um gosto literário bem crítico e realista. Ele lê porque arranjou uma webcam barata da sua época e conseguiu soldar uma pré-histórica entrada USB para utilizá-la. O driver ele mesmo fez a partir do que a webcam pedia. Mas isso faz um tempo, bem mais de duas centenas de anos. Era um bot respeitável.

 

E o gato notou que a lata lá embaixo o viu, e apressou o passo o que era possível, até achar uma ventilação onde o ar não entrava, só se quisesse.

Estava a poucos metros de casa. Na realidade estava encima do apartamento do seu dono, mas a entrada de ar era central. Viu um buraco no duto, com a turbina saliente para baixo, desativada, e uma luz fraca, tremeluzente, vinda de baixo. Foi até lá e cautelosamente esgueirou-se buraco adentro até se soltar para baixo, para cair encima do rack de um cluster de cpus muito variadas.

Por sorte o rack era alto, e seus doloridos não reclamaram muito. Na realidade o teto dali era bem baixo, cerca de um metro e oitenta. Aquilo era um depósito e apesar do teto baixo naquela parte, era vasto em largura.

Talvez colocassem coisas que não pudessem ser empilhadas ali, e havia marcas de cimento queimado e de pneus levando cargas muito pesadas no concreto nu e frio dali.

O rack ficava no meio da sala, e uma TV na parede estava apresentando um documentário sobre a África cheia de bichos que não existem mais. Ninguém estava assistindo. A TV era uma projeção num pano sintético branco encardido de uma lente de um computador com captura de vídeo que estava ao lado da cama.

A humana gostava de assistir TV fazendo carinho no gato. A cama, uma cama de casal grande, feita de molas duras, guardadas individualmente em sacos, fora fabricada em tempos imemoriais. Grande parte da forração e do algodão se foram. Cobertores amassados e bagunçados estão sobre ele.

O gato pensa em deitar-se lá, mas está com muita sede e fome. Vai para a parte do depósito denominada cozinha. Uma parede parcialmente derrubada divide a cozinha do resto da casa (que é a sala e o banheiro). Um muro de cinqüenta centímetros de espessura de concreto puro quebrado revelando ferros contorcidos e cabos ocos a um metro do chão delimita onde há comida e água e onde há repouso e carinho.

Foi até lá. Subiu na parede quebrada. A humana estava lá, pegando algo da geladeira, e isso é bom. Pulou para o chão e roçou nas pernas dela tão suavemente como só um gato sabe fazer. Miou baixinho. Nada.

Lá debaixo o gato só via a humana mexendo em algo na pia, concentradíssima. Não sentia nenhum cheiro de comida, só o familiar odor de concreto queimado da casa.

-Que foi, gatinho? Quer comida, né? Só um pouquinho. Ela pegou uma seringa, e com a agulha para cima tirou o ar da solução dentro apertando gentilmente o êmbolo. Colocou na pia, e foi para um armário metálico onde havia a tão desejada comida.

A ração para gatos é difícil de achar, e é cara. Mas quando falta fornecimento de comida para todos, é um almoço completo, e dura bastante sem precisar de refrigeração. A comida liofilizada dura também, mas não é tão nutritiva ou saborosa quanto ração de gato.

-Toma felino. Abriu um pacote cinza brilhante cheio de letras e tabelas com o desenho rudimentar de um gato (era uma ração genérica importada, claro) e despejou um pouquinho num copo metálico, e pôs no chão. O gato avançou na comida, e tinha um sabor… Bom, um sabor de comida.

Ela beliscou um pouco de ração, olhou a figura borrada do gato no pacote e leu um pouco sobre a importância duma alimentação balanceada para felinos em muitas línguas diferentes e havia uma que parecia Hexadecimal.

Encheu outro copo com água e deu para o gato. O gato bebeu.

A água é obtida em botijões de polietileno, vinda das mais improváveis origens: De naves coletoras de condensação de nuvens nimbos que não conseguem chover, das fazendas de umidade, de lençóis freáticos contaminados, da dessalinização por osmose forçada dos mares, e principalmente, de rios contaminados e do engarrafamento do líquido de lugares que ainda possuem água potável natural, como o Brasil e dos últimos degelos das montanhas que tinham neves eternas em seus cumes.

 

Ela ficou pensando por onde aquela água passou para parar dentro do gato.

E onde o gato passou para estar tão sujo e malcheiroso.

Pegou a seringa e forçou-a contra o braço. Havia lá dentro soro fisiológico e um bot que parecia um grão de arroz miniaturizado. Apertou o êmbolo até o bot entrar. E ele tratou de logo ir para o pescoço e lá secretar hormônios que normalmente uma tiróide produziria.

Ela tinha hipotiroidismo, que apesar das recomendações de terapia gênica para seus avós e seus pais, poderia não existir mais. Esse bot fora feito para os possuidores de uma tiróide preguiçosa, mas faz ilicitamente obesos e sedentários acelerarem o metabolismo, mesmo sob a pena de suas tiróides de verdade se tornarem preguiçosas pela falta de serviço e se tornarem inativas, e mais tarde, o corpo entender que ela é inimiga do corpo e consumí-la sob hostes de macrófagos.

Esfregou a agulha na pia até quebrar, colocou-a dentro do êmbolo e descartou-a.

O gato mastigava sonoramente.

Ela foi até a cama e se esparramou lá. Havia um pote de pipoca pela metade, e ela o pegou.

Entenda pipoca como uma iguaria, pois plantar sem ser visto é complicado, mas um amigo dela plantava numa estufa no terraço. Amizades variadas e influentes são importantíssimas na sobrevivência dos humanos. E seu namorado não possui muitas.

Aliás seu homem passava as poucas horas que não estava no hospital de bruços num projeto idiota de uma secretária eletrônica.

Já havia todo o tipo de variação de Inteligências Artificiais, todas comerciais, e um grupo de programadores open-sauce, source, sei lá, que insistia em fazer uma que todos poderiam ver “como funciona por dentro”.

Ela morria de ciúmes e rendia madrugadas discutindo relacionamentos. Achava impensável trocar sua companhia feminina por solda, circuitos e uma miríade de letrinhas oscilando no monitor, e o chat.

O Chat era onde as informações eram trocadas, textos e arquivos sobre uma droga de secretária eletrônica.

Que idiota, ele…

Posted by juan aka suddendevice at 01:30:16 | Permalink | No Comments »

Sunday, December 9, 2007

Um capítulo do Segunda Morte

Tô escrevendo um livro. Bom, além dos contos em paralelo, quero escrever uma obra completa, unir as pontas, criar um universo para eu imergir.
Acabei de descobrir que eu estou escrevendo um livro para mim mesmo :P
Faz anos e anos que eu escrevo capítulos soltos, introduzo personagens e sutilmente os insiro no enredo. Sinceramente, não esperava conseguir aquele vínculo tão forte que une todos os elementos duma obra.
Num dos primeiros contos, o Vampiro Morto, tem só uma personagem: Eu temi que ficasse cansativo
 demais, circular em torno de um elemento. Acabei notando que ficara bom, e que na verdade há
muitos outros fatores que o leitor pode interagir, a partir da abstração da personagem…
Que aliás não tem nome (é tão mais fácil botar um nome no personagem, mas eu fiz questão de não) e é uma daquelas histórias que começam contadas pela metade, e que ocorre numa época que tanto pode ser futura quanto passada. O começo é o fim, o segundo é o começo, e a conlusão é o auge da narrativa.
Comecei o segundo, e tive que alugar um Atlas e muita literatura sobre o Egito para não cometer gafes… Mas elas são inevitáveis. Talvez poste aqui, e arcar com algo de teor forte e provocante em algumas cenas… Ficou extremo e ousado quase que sozinho, e na medida certa: Não quis interfirir no curso desse livro, e ele tem se mostrado muito caprichoso e voluptoso… Com requintes cruéis e ao mesmo tempo humanos, passionais.
Mas, voltando ao Segunda Morte, esse tem muita gente diferente, personagens muito complexos e elementos que ganharam alma que certamente vão me dar muito trabalho.
Eu tenho lido livros em inglês (como o The Flood e o Next, do William Dietz e Michael Crichton, respectivamente) e traduzido contos do Neil Gaiman: Tudo para tentar pegar o estilo suscinto, humorado e instintivo de construir uma imagem mental da cena… Li não sei onde que o Stephen King aconselha que, o que pode ser cortado na frase e manter o sentido dela, tem que ser cortado.
Não concordo totalmente, mas é que eu me alongo demais às vezes, o que pode ser um exagero em situações que exige uma narrativa objetiva…
Bom, tem dado resultado, e muitas idéias vendo estilos novos :P
Eu escrevia que nem Português arcaico… Agora a fluidez acelerou e ficou mais mordaz, hehe.
Depois posto mais coisa. ;)

O gato sai correndo da cama. É madrugada ainda, e daqui a algumas horas, toda a rotina da semana começa. Ele está muito cansado para sair debaixo dos cobertores, mas ela insiste em dizer que ele não a ama.
E que tem outra.
E que quando eles transam, ele pensa em outra.
E que ela é velha demais para ele, e há outras mais bonitas que ele está fodendo.
E que ele a engana, de alguma forma, e faz isso por puro sadismo.
E que ela ama muito ele mas ele apenas finge, e um dia irá dar um pé na bunda dela porque ela “passou do prazo de validade”.

-Ah, hun (de “honey”), por que a gente não discute depois??? Deixa eu dormir…
-Olha aí, tu nem dá bola pra mim!!! Tu tá nem aí para nós, tá deixando a relação ir por água abaixo!!!
Ele se vira e olha para ela:1
-Mas o quê tem de errado na nossa relação??? Eu gosto de ti, tu gosta de mim, pronto!!! Boa noite, honey.
Ela está sentada na beira do colchão velho de molas. Ele está deitado, tapado com as cobertas e o travesseiro escondendo o rosto. Ela começa a suspirar, e a choramingar e a fungar. Ele ouve, tira o travesseiro e se senta, sabendo da cena que já viu várias vezes já começou, e pergunta: “Ai, hun, tu tá chorando??? Por quê???” É a anfetamina???
-Deixa pra lá.
-Fala, amor. Não chora.
Ele tenta enxugar uma lágrima dela, mas ela afasta o rosto, e o olha com feições de nojo:
-Tu não se importa mais com o nosso namoro. Tu quer terminar. Eu sabia que um dia a gente iria terminar. Sabia…
-Terminar??? Quem disse isso???
Ele tenta lembrar se ela tem tomado muitos diazepínicos com álcool….
-Deixa assim.
Ela vira as costas pra ele, enxugando as lágrimas e fungando.
-Não, peraí, tu tá chorando porque a gente vai terminar???
Ela rapidamente o olha com os olhos vermelhos, suplicantes agora, e dispara:
-A gente vai terminar mesmo??? Agora???
-Hã??? Eu-…
-Tu é um monsto!!! Tudo que a gente já passou e tu decide terminar assim, de repente!!! Tu tá com outra pessoa, né??? Faz quanto tempo??? Um mês, dois meses. Ela fode melhor que eu, né??? Tem silicone, implantes!!! É mais nova, mais “gostosa”. Fez enxertos, né cretino?!?! Homens. São tudo a mesma merda.
Ela sai da cama, e vai para o banheiro. Ele tenta segurá-la, até, mas ela se desvencilha e se tranca no banheiro, dizendo: “Me solta!!! Me deixa!!!”

São 6:20 am da manhã, e o despertador do celular toca. Ele pega e desliga o celular. É hora de se arrumar papa ir para o Hospital. Tem que ir trabalhar. Uma voz rouca e indignada vem abafada de dentro do banheiro:
-Viu??? Deve ser tua outra. Atende!!! Fala com ela!!!
E ela assoa o nariz, enquanto diz para ela mesma o quanto é trouxa e que ela sempre foi enganada.
Ele sai da cama, não se espreguiça -está muito tenso- e caminha tonto e enjoado até o banheiro. Sua manhã começou péssima e com gosto de alumínio azedo na língua. Vai até a porta: Trancada. Bate duas vezes. Ele não aguenta mais essas crises de ciúme sem causa definida. Seu estômago dá voltas.
-Deixa eu entrar.
-Vai lá ver a tua piranha, vai.
-Abre aí, eu quero falar contigo. Não tem piranha nenhuma na minha vida, Melissa.
.
Ele está com os olhos rasos d´água. Não suporta mais esse comportamento doentio dela. Do nada, ela acorda e começa com umas conversas de traição e de ser enganada e de ninguém amar ela. Parece que o amor que ele devota a ela não é percebido. Ela é doente e não consegue notar o quanto ele a ama.
E a porta se abre de supetão. Ela sai a passos firmes, para o guarda-roupas do outro lado da sala. Começa a tirar as roupas das prateleiras. Pega a mochila na porta de cima e começa a socar umas roupas lá.
-Quer saber Set, eu vou embora. Chega de bancar a trouxa, não aguento mais. Chega de ser a otária, a última a saber sempre. Eu vou embora.
Ele, parado na frente da porta do banheiro, olhando ela colocar as roupas na mochila, está em lágrimas, incrédulo. Não fez absolutamente nada nos últimos anos que não trabalhar como um escravo, e ver TV com ela, gastar dinheiro com ela e se dedicar a ela e digitar linhas de programação e montar e desmontar hardware no micro e ter que ouvir este tipo de coisa, todos os dias, todos os meses, todos os anos.
Ele vai até ela. Toma a mochila da mão dela. Joga-a no chão. Quer atenção e sua paciência já se esgotou. Ela torna a pegá-la, e volta a socar roupas lá dentro. Ele puxa a mochila de sua mão frágil e trêmula, joga no chão com força, a pega Melissa atônita pelo braço, e a joga na cama. Ela, muito magra e delicada, voa para a cama e dramatiza a cena esvoaçando seus cabelos profundamente vermelhos, contrastando com a pele extremamente branca de seu corpo esguio.
Uma tênue excitação apossa os dois. Uma cena doentiamente erótica.
Ele senta na cama, coloca a mão no rosto dela:
-Hun, pára com isso. Eu te amo.
-Então porque tu não me dá atenção?!?!? E dá um tapa na mão dele.
-Mas eu te dou atenção!!! Como assim???
-A tua vida é trabalho e computador, trabalho e computador, sempre!!! Que merda!!! E eu??? Tu nem me dá bola!!!
-Mas honey, a gente assistiu filme, fizemos sexo tão gostoso hoje a noite, até pipoca nós fizemos!?!?! Te dei o nano da Tiróide… Tu gostou tanto… Não tô entendendo isso…
-Ah, a gente sempre faz a mesma coisa, parece que eu sou parte da tua rotina entediante, e que outra mulher é que tá com a parte excitante da tua vida!!!
E desata a chorar. Pôe as mãos no rosto, chora copiosamente, de soluçar, e funga sonoramente. Ela sofre de rinite por nada, e faz sons terríveis quando suas vias aéreas entopem. Antes era até engraçado, agora só é feio e ridículo. Ele se levanta e pega uma toalha que caiu do roupeiro no chão. Alcança a ela. Ela limpa o nariz, e ele diz a frase que estragou tudo.
Ele tinha recuperado um pouco lucidez dela, ela estava até acreditando nele, mas ele falou.

-Hun, não tem nenhuma mulher na minha vida!!!

Ela baixou as mãos, soltou a toalha. Seus olhos cinza, caríssimos, cerraram faiscando, fuzilando ele de raiva. Seu lábio inferior tremia com ódio. Ele notou que falou algo que não devia. Agora ela vai ficar muito puta da cara.
-Não tem nenhuma mulher na tua vida, é, Set???
-Hã… Não???
-E é assim que tu me fala??? Como se eu não fosse nada na tua vida?!?!? TU não dá a mínima pro que eu sinto, né?!?! Quer mais que eu me foda, que eu saia dessa tua vidinha de merda pra ti comer a tuas peruzainhas por aí, né?!?! Pelo menos poderia ter me preparado pra dizer, pra que não doesse tanto quando tu fosse me largar… Mas eu não significo nada pra ti. Filho da puta, eu te odeio…
Ele… Bom, ele está pasmo. Não acredita no que vê. A Mel, piamente acreditando na sua versão doente da verdade, e agora essa, de que “nenhuma mulher na minha vida” exclui ela também. Agora o enjôo dele deu lugar a uma séria ânsia de vômito e um desconforto abdominal muito dolorido. Sua cabeça lateja e gira.
-Ô Mel, por Deus, porra!!! Não tem mais nenhuma mulher na minha vida além de ti!!! Putaqueopariu eu te amo, que merda, não tem mais ninguém, ninguém pôxa… Vem aqui.
Ele, chorando abraça ela. Ela tenta se soltar mas ele abraça ela igual. Um abraço quente, reconciliador. Ele chora mais ainda, e sente amor por ela: Um misto de ódio por amar tanto ela, e de ela estar acabando com a saúde e intelecto dele, e fazendo migalhas de seu coração.
Ela se sente acolhida: Vai ver ele entendeu que ela quer se sentir um pouco mais próxima dele, cada vez mais próxima dele, absorver ele, mais e mais, porque o máximo não é o bastante, ela simplesmente não consegue ter o bastante.
Já são 7:30am, e ele vai chegar atrasado no trabalho. De novo. Ela não, ela está de folga: Trabalhou a noite anterior toda na decoração das salas de alguma Rave promocional de algum provedor de Internet de algum país de terceiro mundo. Chantagens emocionais, bebidas e decorações psicodélicas ela fazia muito bem
Ele se arruma com pressa, derruba a xícara de café, faz um sanduíche e o esquece na mesa, pisa no rabo do gato e quando vai se despedir dela, ela está na cama, ainda de pijama, uma camisola de cetim antiga e calcinha, olhando para o celular desligado:
-Tu desligou ele, né??? Era a outra ligando mesmo… Eu sabia.
Ele respira fundo e sai, sem celular. Se arremessa para o corredor, fecha a porta e se joga para dentro do elevador de serviço menor. Senta-se no chão olhando o nada a frente, observando pensamentos rápidos e sobrepostos do que aconteceu instantes atrás.
Sem celular, sem ver o que o P2P baixou durante a noite, sem ver como estavam os ups e downs dos micros, suas messages, a compilação do Kernel novo… Sem tomar café, descabelado, sem comer nada, sem trocar a água e a ração do gato. Sem ver as notícias da sua página personalizada do Google, sem orar ao Deus pedindo por um bom dia. Toda a sua rotina por água abaixo. De novo.
Não suportaria nem mais um segundo perto dela. Pelo menos naquela manhã.

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Tuesday, August 28, 2007

Karl Marx, “Uma Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (1844)

O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condi;cões desalmadas. É o ópio do povo.

Karl Marx, “Uma Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (1844)

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Saturday, August 25, 2007

Da preguiça

Faz tempo que não escrevo nada.
Faz tempo mesmo… Dessa vez resolvi parar de postar coisa de Ctrl+C e Ctrl+V e fazer algo pelo aspecto espiritual desse blog paradão :P
Vou postar meus textos sobre os pecados capitais.

A preguiça é, na minha opinião, o defeito capital mais terrível. Claro que há o Orgulho, célere destruidor, mas a preguiça aliada a procrastinação, e a acídia, é por demais temível.

Há a muitas facetas, a preguiça, e são discretas e envolventes… Como a preguiça do labor, do compromisso, que corrói o convívio social e o convívio interno.

Como cita Joanna de Ângelis: “Um preguiçoso para a psicologia é uma pessoa sem resistência moral e psicológica para os desafios impostos pela vida. Que busca justificativas sempre externas para a sua falta de ação naqueles momentos decisivos que lhe surgem”, ou seja, uma pessoa fraca, ou incapaz de tomar uma ação frente algum desafio e que culpa as pessoas próximas de sua inépcia.

Entra em cena a procrastinação. No latim, é deixar para amanhã. Procrastinadores geralmente possuem transtornos psíquicos nos graus mais variados, e evita tarefas ou uma tarefa específica e que, surpreendente, não é necessariamente vinculada a preguiça, mas também à ansiedade, mais conhecida pelos quadros de hiperatividade, mascaradora da atitude preguiçosa.

Tarefas complexas que são constantemente evitadas, baixa-estima, perfeccionismo não adapativo, ansiedade, stress, e outros são agravantes e agravados pela procrastinação.

Contudo, de todo ela não é sempre patológica, e a preguiça em si não é única dos seres humanos. Outros seres vivos usam dela como economia de energia, em períodos de escassez de alimento, sendo um artifício que a natureza usa na sobrevivência. Entre os seres humanos, há um nível natural e aceitável de procrastinação e preguiça, contudo, o estado patológico desses estados trazem transtornos psíquicos, fisiológicos e espirituais.

E há a acídia, a face mais perigosa desse defeito. É a tristeza pelo bem espiritual; a acidez, a queimadura interior do homem que recusa os bens do espírito. A preguiça de atentar para as Obras do Espírito, e de seu Bons Frutos. Atualmente, a acídia fora suplementada pela preguiça como pecado capital, tida como a “menos pior” dos defeitos, deixando de mostrar sua gravidade de adiar a Obra.

O autor Pieper salienta :”O fato de que a preguiça esteja entre os pecados capitais parece que é, por assim dizer, uma confirmação e sanção religiosa da ordem capitalista de trabalho. Ora, esta idéia é não só uma banalização e esvaziamento do conceito primário teológico-moral da acídia, mas até mesmo sua verdadeira inversão”. Ora, o oposto da preguiça não é trabalhar, não é gerar capital. O oposto dela é a iniciativa, espontaneidade, cometimento, ímpeto, ousadia, liderança, inovação. O conceito de preguiça como pecado além da preguiça de acordar cedo fora esquecido, mas ele atua, e mais do que nunca. A procrastinação de ler as Sagradas Escrituras, de meditar, de orar, de praticar caridade, de ascender espiritualmente.

Em nossos dias, estamos ocupados demais com a rotina de trabalhar, estudar, descansar para fazer tudo de novo, e de obter moedas para sobreviver. Em nosso cotidiano dificilmente cabe aquele tempo tão necessário, o momento de dedicar-se à Verdade Superior.

Um treino de Vontade, um constante exercício para aguçar a iniciativa, e de abandonar o costume de deixar para amanhã, e enfrentar ao invés de evitar o que teme, é necessário para combater esse pecado. A Vontade, unida ao Verbo são os que originam a ação, o movimento. Devemos possuir a Ousadia Divina, de ter ímpeto de agir e professar segundo Sua Obra, e isso começa nos pequenos atos. Afirmo novamente: A preguiça tem uma dinâmica parecida com a da ansiedade: Distração, irritabilidade, sensação opressora de algo sempre pendente, começar várias coisas a fazer sem concluir nenhuma, procrastinação quanto a uma tarefa difícil, nova ou importante, projeção de culpa da preguiça/ansiedade em outras pessoas, depressão, desenvolvimento de manias e de compulsões, depreciação de si próprio através de transtornos disformes, baixa-estima e outros. Geralmente o preguiçoso não consegue realizar tarefas simples, o que provoca negligência, fatal na Obra como ilustra sabiamente Eliphas Levi: “O pó (sobre móveis da casa que acumula com o tempo) é sinônimo de negligência, e negligência no Caminho Mágico é fatal”. Um amigo, um cônjuge podem ajudar neste sentido, no de introduzir novos hábitos sendo um exemplo e vencer a estagnação, mostrando novas formas de realizar alguma tarefa que o preguiçoso evade, e, principalmente, apresentar ao enfermo novidades.

A novidade, podendo ser dito um grande oposto à preguiça, é de grande auxílio pois a estagnação é dissipada rapidamente. Mudar a disposição dos móveis da casa, mudar de casa, mudar para uma dieta mais frugal, natural e evitando excesso de carnes e alimentos pesados, fazer exercícios físicos com frequência, conhecer pessoas e visitá-las e ser visitado renova o movimento do espírito.

E uma religião forte, um vínculo poderoso com Deus, e orações verdadeiras e fervorosas no sentido de combater esse defeito é de vital importância.

Vale lembrar que Cristo mostrava calma e benignidade de espírito, mas nada de preguiça. Parcimônia, bondade, cautela, minúcia e dedicação não podem ser confundidos. Ademais, a Bíblia aborda este tema em várias partes, e nos exorta quanto a evitar esse defeito capital, como no Provébio 6: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no estio, prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento.”

A Mitologia Grega também cita, e há uma versão que explica a origem da constelação do signo de câncer que um Caranguejo fora mandado para beliscar Hércules para “avivar-lhe o espírito”, quando estava prostrado de cansaço durante o combate da Hidra. O Caranguejo enviado fora esmagado durante o embate, e pelo comprimento de seu objetivo, fora eterno para os céus.

Ora, se Hércules teve de ser estimulado a continuar, porque houve “tristeza em continuar” o embate da criatura que multiplicava as cabeças ferozes à medida que eram decepadas, que dirá de nós humanos, frente aos problemas modernos tão conflitantes individuais? Exige Vontade forte, para vencermos este mal que surge sutil e confortavelmente envolvente, mas que priva de movimentos e nos faz sucumbir frente ao que pode ser combatido.

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Thursday, May 17, 2007

Como as outras coisas que não são Deus poderiam perceber Deus como Deus?

Era pra ser um conto: Acabou virando sei lá o quê. Eu escrevi, livremente, ano passado isso… Achei entre a confusão de escritos..

 

    Existiu uma vez, um paradoxo: Como Deus seria compreendido, ainda que infimamente, por criaturas inferiores? Inferiores, digo na concepção de que, igual a Deus é uma realidade inconcebível. A pergunta seria melhor assim: Como as outras coisas que não são Deus poderiam perceber Deus como Deus?
    Esse conto é sobre isso. Sobre a razão do livre-arbítrio, do mal ser necessário para provar a perfeição como nosso ouro material nas chamas materiais, o espírito a ser provado nas provações. Também é sobre a sede dos finitos pelo o que é infinito.

    -Bom dia! Uma voz onipresente diz, e tanto se ouve no vale do Nada como se ouve no pensamento.
    -O que é bom? E o que é dia? Perguntaria o nada, se pudesse formular algo, porque desconhece tudo, porque somente o Nada existe.
    -Essas coisas eu criarei, e tu não mais existirá.
    -Criar? Existir?
    Puf! O Nada deixou de existir, e o Caos tomou o seu lugar. Deus de certa forma não gostava muito do Nada, mas era necessário ele existir primeiro. Era muito chato, o Nada, porque vivia perguntado as coisas, e nunca aprendia nada, só sabia de nada, ou seja, dele mesmo.

    O Caos era mais interessante, apesar de ser caótico. O Nada deixou lugar para o Tudo, mas esse Tudo era tão sem propósito que Deus até cogitou o Nada e suas perguntas de sempre.
    -Ah, Caos, Deus diz, e suspira. Te coordena! Seja algo!
    -Quem és tu? Tu não fazes parte da minha loucura sem início e sem causa, o fim e da causa das causas, do meu despropósito proposital com todas as coisas, que unem-se e decompõem-se na formação da deformação e na deformação da formação.
    Deus lembrou do futuro (porque para Deus é tudo um eterno presente, essa história de passado e futuro é coisa de coisas que não são Deus) de um tal de Bad Mojo Jojo, o Macaco Louco. Repetia e enfatizava as mesmas coisas só para contradizê-las depois e tudo de uma forma comicamente chata.

    Vamos dar um desconto, afinal, o Caos só conhece o Caos. O Nada passou a ser inconcebível com o Caos, que fez o Vácuo, um pequeno nada entre duas algumas coisas, em homenagem ao irmão falecido agora impossível.
    -Acho que o Nada era até mais caótico que eu, disse uma vez enxugando uma lágrima sincera: Só que ele não tinha nada material para brincar.
    Se Deus não fosse Ele, quando ele disse para o Caos ser algo, o Caos continuaria a ser o Caos, a nova forma do nada porque por mais desvairado que o Caos fosse, não conseguiria compor nada sem decompô-lo em instantes ou ao mesmo tempo, porque faltava algo ou excedia algo ou não havia algo, ou havia algo demais… Enfim. Caos.

    Como Deus é Deus, e sua voz imperativa é o Verbo que Faz, apareceu algo. Esse algo o escritor não sabe o que é, contudo depois do Caos veio uma coisa como a Ordem. E o Caos se coordenou.
    
    Já sei o que é. É como se não que algo fosse criado, mas seu antagonista. A Ordem seria isso, e o Caos seu complemento, mas os dois são a mesma coisa. A Unidade.

    Compreensão, Decomposição, Composição.

    Então o Nada seria Deus, e o resto o antagonista que compõe a unidade? De certa forma sim, e o pessoal Budista compreende isso muito bem. O “Vazio Luminoso”, se é que um Ocidental que não conhece meditação pode conceber o vazio com algum lume, seria a forma Divina na sua essência, e nós, parte do tal “Vazio Inicial e Absoluto”. O princípio Cristão da criação do homem e das coisas com “Fôlego de Vida” é exatamente isso, algo que é parte de Deus: Nós, ou melhor, a nossa composição como um todo.
    Mas voltemos a gênese versão abstrata-não-Adão-e-Eva:
    Com o Caos e a Ordem as coisas melhoram significativamente. O caos não apronta as suas e, quando apronta, a Ordem vai lá e dá um jeito de fazer com que a bagunça caótica seja boa para a próxima coisa que Deus fez:
    
    -Que se crie… Ah, que se crie o que eu fiz em uma semana… E hoje é Sábado e eu vou descansar. E as coisas criadas na semana da Criação foram criadas, cada um no seu dia e no sétimo Deus foi se esticar. Porque Deus conhecia aquela história toda muito bem e aquele Sábado ele descansou muito e quando se lembra ele descansa cada vez mais, porque o que veio depois não foram criações complicadas, foi uma bagunça mais chata que as do Caos e do Nada, usados como veículo do Mal, ciumento por não entender o propósito de tudo e não entender o que é Deus e o que não é Deus. E ele, o deus das Moscas, quis ser como Deus e não como criação e se deu mal. Foi condenado a acabar para sempre. Veio parar no jardim etérico, e seus camaradas de causa, e foi-lhes imputada autoridade sobre o ar atmosférico, e reina atualmente no Terceiro planeta da órbita do Sol amarelo.

    Se fosse feita uma reunião agora dos locais habitados no Universo, o representante dos humanos seria ele, o príncipe do Mundo.

    O mal não foi Deus quem criou, mas veio a calhar na história do livre-arbítrio. Talvez a Ordem tenha encaixado ele, o Cão Chupando Manga, de forma satisfatória na história absoluta.
    Com o princípio do binário funcionando bem, e o jardim do etérico em seu lugar, perfeito, num planeta perfeito, iluminado ou não pelo Sol perfeito (muitos acreditam que o próprio Deus iluminava o Paraíso, depois vieram o Sol e a Lua, como será no Paraíso-Novo-de-Novo, quando Deus vier arrumar as coisas pela Terra).
    Só faltava a possibilidade do Mal, que não demorou muito para ser instalada por lá.
    Uma árvore, talvez uma parreira, ou um pé de melancias, ou algo que figuradamente significando, se a jaca, caju, caqui, romã sei lá do conhecimento, melhor, discernimento (dis.cer.nir
v. tr. dir. 1 Ver distintamente; discriminar, distinguir, conhecer. 2 Tr. Avaliar bem; apreciar, medir. Só se usa nas terceiras pessoas. Conjuga-se como concernir.), é que tudo estaria de acordo com as regras naturais.
    Naturais porque elas foram aparecendo conforme foi necessário aparecer, como a ação do Caos sobre a Ordem e vice-versa, do Tudo sobre o Nada, de Deus sobre o Tudo e o Nada… o equilíbrio através do desequilíbrio do nosso sistema material de coisas inter-relacionadas.
    E Eva, que quer dizer Vida, provou do discernimento, ofereceu ao seu Adão, que quer dizer homem, e o que é humano certamente morre.

    A primeira mentira foi a promessa da não-morte, a de estar acima da Ordem, do Caos, do Nada, do Tudo e de Deus, portanto, ser como Deus, a outra mentira.
    -Mas Deus nos disse que todas as frutas do Paraíso são boas para comer, mas quem comer dessa árvore certamente morrerá.
    -Morrerá coisa nenhuma! Vós conhecereis o Bem e o Mal, e então sereis como Deus.

    O Bem e o Mal porque o Bem era Deus, e o Mal naquele plano não existia até então. Se comesse, existia, e foi o que ocorreu.

    Não dá para viver para sempre sem ser Deus. Isso porque o que não é perfeito nunca vai ser perfeito por esforços próprios. O débito do Karma é um ciclo que não acaba, porque o que espanca vai ser espancado na próxima densificação, e o que espancou vai ser espancado na próxima densificação e o espancador do espancador do espancador vai ser espancado na próxima densificação e etc., interferindo até no livre-arbítrio, a livre vontade ou não vontade de seja lá o que for fazer ou não, para que o que você fez seja devidamente pago, suas ações devem ser conroladas, e sua margem de ações livres drasticamente reduzidas.
    O Inferno e seu fogo que arde para sempre e as pessoas recebendo punição eterna desafiam esse princípio de que o que não é Deus não dura para sempre. E Deus, o criador do Amor e misericordioso com os pecadores como só Ele pode ser, nunca admitiria estar gozando da Eternidade Perfeita com seus remidos enquanto, se olhasse para o lado, veria um abismo de gente queimando até morrer muitas vezes e ainda cutucados com tridentes por demônios mal-humorados que também estão sofrendo e descontando nos condenados sua insatisfação.

    Admitir um deus assim é fazer com que o Mal seja eterno e portanto como Deus e portanto, inconcebível.
    
    A raça humana (homem vem de húmus, cocô de minhoca) então entrou numa decadência vertiginosa e atualmente vive só uns setenta e poucos anos, a base de antibióticos e respirando um ar terrível num mundo onde só há lugar para quem peca e morre cedo por causa do pecado.
    Tendo em vista o resgate dessa queda de uma criação das mais criativas, Deus bolou um jeito de se fazer como se fosse criação, não ceder ao Mal e deixar de ser (morrer) para redimir os pecadores do pecado e poder trazê-los novamente para conversar em longos passeios pelo jardim .

    Parece maluquice, mas Deus sacrificou Deus em prol de uma de sua criação, justo aquela que escolheu o que não era bom para ela. Deus perdoou o pecador, mas condena o Pecado, e vai dar um fim no Nada, no Caos, na Ordem e no Tudo, e vai fazer um negócio que gente não compreende pelas limitações (read-write-exec para os linuxers) da nossa realidade e discernimento.

    Mas um dia a coisa pára, e como vai ser?

    Deus nos disse, transcrevendo a linguagem simbólica do Apocalipse, Daniel e outros livros proféticos, e torcendo para que o pessoal que definiu o Cânon estejam certos de que esses livros se tratam de realmente os inspirados diretamente por Deus, e que a tradução e as cópias das cópias desde a Biblioteca de Alexandria (se é que algo da Bíblia como conhecemos além do Pentateuco passou por lá) e as traduções das traduções até a nossa estiverem pelo menos no sentido, corretas, daria para definir algo.
    Os humanos, não mais na forma de húmus, mas de um éter que não sabemos como é, vamos passar mil anos dando uma volta no Universo com Deus para comemorar a vitória sobre o Mal que utilizava mal os recursos existentes e para sermos troféus de nós mesmos, apresentando-nos a outras civilizações.
    A Bíblia é esquiva quanto a seres vivos fora da terra. Nessa concepção, a de que ET é uma criatura fora da Terra, Deus e os anjos são ETs. Não com antenas, verdes, ou de olhos esbugalhados vítreos e ameaçadores, loucos para vasculhar mentes e autopsiar gente para ver o que tem dentro. Talvez sejam criaturas que já tenham vencido o mal, e feitas do tal éter que não entra em contato conosco de jeito nenhum, na nossa corrupção e restrição material de agora.

    Uma nova linha de ufólogos mais conscientes acredita exatamente nisso, e acham que o SETI dos Estados Unidos nunca vai funcionar, porque a vida não precisa ser baseada em Carbono, como conhecemos, e que é tão avançada que julga a forma humana como insignificante no sentido mais pleno da palavra.

    Então o próprio Deus fixaria casa conosco, no novo Jardim do Etérico, morando no local onde fora vencido o pecado definitivamente. Aliás, o Anjo Revoltado tentará, segundo a visão de João, tentar destruir o Jardim, então o mal será aniquilado “com fogo do céu que os consume para sempre”. Definitivamente?
    O mal vai sempre persistir, porque Deus não quer gente do lado dele por obrigação. Então vai sempre existir a chance de escolha, o tal livre-arbítrio, e de alguma forma, se alguém aceitar, sempre haverá um veículo para ele. Não que o mal seja uma ameaça que sempre, mesmo após ter passado esse horror que é o mundo material, a nuvem escura paira mesmo no Paraíso.
    Trata-se de uma escolha, apenas, exatamente como agora, nós imperfeitos, podemos escolher o Deus da Harmonia e da Renovação, podemos escolher também quando formos Perfeitos.

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